Com tiro, porrada e bomba, o novo filme do diretor Scott Waugh chega aos cinemas brasileiros. Três horas para viver, protagonizado por Alan Ritchson e Owen Wilson, apresenta a saga de Hank Malone, entregador de alto nível que está a caminho para levar um fígado para uma garota de sete anos. No meio do trajeto, o personagem de Ritchson é surpreendido por uma gangue que busca roubar o órgão.
O brasileiro Rodrigo Santoro integra o time de vilões com o personagem Damian Zaldívar. Em uma corrida atrás de Hank Moreno e, lutando contra o tempo, Damian tenta interceptar a entrega do órgão para salvar sua mãe. O forte antagonista ganha vida por meio de Santoro.
Em entrevista ao Correio, Rodrigo Santoro fala sobre a construção do seu personagem e o momento atual da sua carreira no cinema internacional. O ator viveu papéis importantes fora do Brasil em filmes como 300, Simplesmente amor e Golpe duplo.
Três perguntas // Rodrigo Santoro
Como chegou o convite do projeto para você?
O convite chegou, eu recebi o roteiro, e eles me ofereceram a personagem e a minha reação foi muito interessante. Eu me surpreendi porque eu soube que era um filme de ação, que não é algo que eu esteja muito acostumado a fazer. E me surpreendeu por ser justamente um filme que me remetia aos filmes feitos naquele cinema americano nos anos 1980, 1990, que eram histórias que justificavam a ação, histórias em que o espectador se conectava, que o drama existia e a ação acontecia durante uma história que estava se desenvolvendo ao longo daquele tempo. Gostei disso, achei surpreendente. Tinha uma curiosidade de participar da ação propriamente dita. Fiz 300, por exemplo, que era um filme de ação, mas eu fazia um imperador que ficava lá no trono dele e não se envolvia com a ação. E sempre tive curiosidade, eu acho que desde menino, de como seria fazer isso. Também tive um um ótimo primeiro encontro com o diretor, eu falei: me interessa muito, mas achava o vilão bem tradicional dos filmes de ação e perguntei se teria espaço para deixar ele mais interessante e ele deixou imediatamente. Eu achei ele tão aberto e tão a fim de fazer que decidi experimentar. Fizemos várias reuniões nas quais eu trouxe várias ideias, inclusive o fato de o personagem falar português. O humor que a personagem tem não fazia parte, a ideia de como ser um personagem ameaçador para um cara gigante como o Alan Ritchson, não dava para ser pela força. Eu fui inventando a personagem com o diretor e acabou sendo um processo criativo bem interessante.
Como foi isso para você explorar um lado mais antagonista nesse processo? Quais partes te interessaram mais, que talvez você não tenha explorado ainda?
Eu acho que o que esse personagem tem de particular é o comportamento. Ele é um sujeito muito problemático, que sente que está no lugar errado, mas tem de fazer aquilo que precisa fazer, mas ele não tem talento para aquilo. Ele não é o gângster. Eu fui encontrando uma coisa até quase patética na personagem. Ele não é aquele brutamontes que vem com as armas. Então, nesse caso, é um antagonista diferente, que tem um descompromisso absoluto com a moral e acaba se divertindo com as coisas. Ele se divertia, mas não era escárnio, não era um requinte de crueldade, é porque aquilo provocava uma adrenalina nele que o fazia sentir-se vivo. Na verdade, é um cara muito amargurado, muito errado na vida e muito triste. Eu pude humanizar a personagem. Então, por isso, acho que ele é um antagonista bem diferente de outros.
Você já está há muitos anos também conciliando cinema internacional com cinema nacional e o streaming. O que você acha que mais mudou no cinema nesse período e o que mais mudou em você nessa trajetória?
O que mudou no cinema, eu acho que, essencialmente, a tecnologia e a própria democratização por meio do streaming. Isso mudou completamente o modelo de distribuição, por exemplo. Acho que é uma questão muito interessante para a gente discutir, eu não tenho exatamente a resposta se isso mudou a forma de a gente fazer os filmes.
A minha forma de escolher continua a mesma. Primeiro olho para o tema que vai ser discutido. Por exemplo, aqui eu achei interessantíssimo. Eu tenho uma admiração profunda por esses socorristas, por pessoas que se colocam na linha de frente e arriscam suas próprias vidas para, de repente, salvar a vida de uma pessoa que ela nem conhece. Médicos, enfermeiras, na própria pandemia, a gente via aquelas pessoas e falava que eles eram os heróis. São heróis mesmo, porque não tem garantia nenhuma de que eles vão estar seguros. Isso me comove profundamente.
A própria doação dos órgãos, como é o avanço da tecnologia e da ciência, isso é hoje muito possível. É um filme de ação, é um filme que também entretém, é um filme que não para do começo ao fim, mas um filme que é levado, é guiado por uma história muito humana no fundo. Eu continuo escolhendo os personagens e os projetos pelas histórias, pelo tema discutido e pelo que eu sinto quando eu me relaciono com a personagem. Alguma coisa acontece,não tem uma fórmula que eu tenho que fazer. Eu gosto de diversificar, fazer um filme como O último azul, que é um filme independente no coração do Amazonas, e fazer um filme como esse, que é um filme de ação, mas que tem uma história que me interessou lá na Austrália.
