Não foram poucos os desafios da série brasileira Delegado, a ser exibida às sextas, semanalmente, às 22h, no Canal Brasil, a partir de amanhã. Rodada em Pernambuco, a série se desdobrou em narrativa longa, sob linguagem complexa, mas dispondo de recursos limitados. "Desde o início, tivemos que abrir mão de algumas coisas, pelo orçamento. Nossa prioridade na produção sempre foram os atores, o casting. A escolha do elenco e a preparação dos atores foram fundamentais. E tivemos a sorte de contar com Gabriel Domingues (indicado ao Oscar por O agente secreto) no casting", conta o cineasta Leonardo Lacca (codiretor da série ao lado de Marcelo Lordello, brasiliense com carreira em Pernambuco). Nome de destaque em filmes como O pastor e o guerrilheiro, O filho de mil homens e O filme da minha vida, Johnny Massaro se projeta como o protagonista que tateia os primeiros passos na função de delegado da Polícia Civil.
Alice Carvalho (também de O agente secreto, assim como Tânia Maria), ao lado de Hermila Guedes, Virginia Cavendish, Rubens Santos e Georgette Fadel completam o elenco. "Johnny faz um personagem jovem e idealista que entra numa instituição com uma história e uma estrutura próprias. A partir do olhar dele, a gente explora as contradições de uma justiça que está em constante transformação", adianta o diretor Marcelo Lordello.
Inseridos na produção da série, os nomes de Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho — também indicados ao Oscar por O agente secreto — despontaram na parceria com a produtora Trincheira. "Além de amigos, produziram filmes nossos e trabalharam conosco como técnicos, inclusive na finalização de som (em outros momentos). Eles leram o roteiro e sempre incentivaram, contribuindo muito com suas experiências. Também foram importantes no sentido de nos estimular a não fazer concessões em relação ao que queríamos realizar. Emilie e Kleber trouxeram muito mais um apoio ao desenvolvimento do que propriamente uma abertura de portas", pontua Lordello.
Nos bastidores de Delegado, a preservação da identidade original da série foi intocável. Conflitos geracionais, tensões internas da PC e lastro na realidade com relação à instituição foram eixos. "Séries policiais, em geral, se concentram nos conflitos entre facções, no tráfico e na violência das periferias, seguindo uma tradição que passa por Tropa de Elite. Fixamos os tipos humanos e a lida direta com a população. É um universo com um potencial enorme para falar sobre o Brasil. Ver o Johnny Massaro naturalizando o sotaque e o jeito de falar foi muito impressionante. Acho que isso é bastante sintomático do esforço que fizemos para encontrar o tom da série e construir uma identidade recifense e nordestina", aponta Lordello. "As investigações policiais conduzem as histórias, mas não são, necessariamente, o que mais nos interessa. Cercamos as contradições de classe, os pequenos absurdos do cotidiano. Buscamos as fragilidades e desejos humanos", finaliza Lacca.
Entrevista // Marcelo Lordello e Leonardo Lacca, diretores
Houve algum estudo de campo ou retratar precariedade é algo inerente ao artista brasileiro?
Lordello — Fizemos uma pesquisa de campo coordenada por Karina Nobre, grande amiga nossa e pesquisadora de Recife, com quem já trabalhamos há muito tempo. Para a pesquisa de roteiro e construção do universo da série, acompanhamos uma turma em formação na Acadepol, desde o curso até a conclusão, e tivemos acesso à Polícia Civil de Pernambuco, entrevistando delegados, agentes e escrivães, além de visitar diferentes órgãos e delegacias. A precariedade foi algo que observamos em alguns desses espaços, especialmente nas atividades de campo e equipamentos públicos. Mas também percebemos investimentos do Estado na melhoria da estrutura e dos equipamentos. Havia, portanto, uma precariedade histórica que convivia com tentativas de renovação, inclusive por meio da entrada de novos profissionais na segurança pública.
Mais uma vez a vida imita a arte ou a arte imita a vida... Como viu a ação desastrosa do deputado, em SP, numa casa noturna e a coincidência da confusão na série? Arma, poder e embriaguez rendem inevitável rock?
Lordello — Esse episódio envolvendo um deputado bolsonarista do PL, que foi a uma manifestação de rua e depois se envolveu em uma situação violenta em um bar, com sua arma chegando a ferir uma pessoa, é bastante emblemático. Não sei se é coincidência, mas, em Delegado, temos uma cena em que os personagens se aproveitam da posição de poder que ocupam para obter benefícios ilícitos numa noitada numa boate. Mas não chegou a tanto como na realidade. Mas é um tipo de comportamento que identificamos durante a pesquisa, do uso do poder para benefício próprio. Acho que isso demonstra como a série tem um olhar afinado para a realidade brasileira, para nossas burocracias, particularidades, contradições e absurdos.
Qual o ajuste de linguagem que sentem em séries nacionais? Que temperos só dão liga em português?
Lacca — Acho que o Brasil ainda está se entendendo, descobrindo sua própria linguagem para as séries. Se, por um lado, algumas produções têm muitas referências da novela, outras se aproximam mais do cinema. E a gente vai tentando descobrir os caminhos possíveis entre essas linguagens. Em Delegado, por exemplo, a gente nunca quis que os finais dos episódios fossem construídos a partir de ganchos que simplesmente iludissem o espectador. A gente falava muito em criar "ganchos elegantes". Queríamos que existisse a vontade de continuar assistindo, mas que essa vontade viesse principalmente do envolvimento com os personagens, do interesse por aquele universo, e não apenas da curiosidade sobre o que vai acontecer em seguida.
O que há de respaldo numa trama com produção assinada por Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux?
Lordello — A parceria é antiga. São pessoas que sempre acompanharam de perto o nosso trabalho e foram entusiastas da nossa produtora desde o início. Ao longo dos anos, compartilhamos com eles projetos, cortes de filmes e ideias, e a experiência dos dois sempre trouxe conselhos muito importantes. Então, a parceria em Delegado aconteceu de maneira bastante natural, a partir dessa relação de confiança e admiração mútua que já existia.
Em cena, há uma arma que tem preparo especial por um padre, na série... Religião e violência têm se aproximado, irremediavelmente, no país?
Lacca — Acredito que sim. Na verdade, acho que religião e violência sempre estiveram muito próximas em determinados momentos da nossa história. Isso faz parte da própria formação do país. E, como acreditamos que o universo da polícia funciona como uma espécie de microcosmo da sociedade, seria muito difícil não abordar também a religião. Ela não é propriamente o foco da série, mas está presente, atravessando as relações, os comportamentos e as contradições dos personagens. Assim como está presente na nossa sociedade.
Lembra de algo peculiar nas gravações?
Lordello — Uma coisa que me marcou muito foi o trabalho de Johnny na construção da prosódia e do sotaque do personagem. Ele foi extremamente cuidadoso com isso. Ficava repetindo as falas, ensaiando para si mesmo, ouvindo as pessoas e prestando muita atenção à maneira como se fala em Recife. Ele circulou pela cidade para captar esse jeito local, porque entendeu que era importante que aquele delegado fosse daqui, que não parecesse um personagem de fora. Outra coisa muito especial foi a construção do Marmota, personagem que a gente adora, interpretado por Rubens Santos. Rubens é comediante e, nos ensaios, tinha uma tendência a querer fazer cada vez mais graça com o personagem. Rubens criou um personagem extremamente carismático, que carrega muito dessa maluquice recifense, desse jeito particular que a gente tem de lidar com as situações e com o absurdo. Ao mesmo tempo, Marmota revela algo sobre a própria instituição: que lugar é esse, que tipo de estrutura é essa que reúne figuras como ele em suas equipes?
Humor é apenas graça na série ou crê ter contribuição na formação de um espírito crítico?
Lacca — Acho que o humor é uma excelente porta de entrada para o pensamento crítico. Principalmente o tipo de humor que trabalhamos em Delegado, que é muito próximo do absurdo. Acreditamos bastante no poder de transformação do humor, na capacidade que ele tem de provocar reflexão, gerar envolvimento e engajar as pessoas. Acho também que isso tem a ver com nossa própria personalidade como realizadores, com a maneira como enxergamos o mundo. Durante a pesquisa que fizemos para escrever a série, à medida que fomos conhecendo melhor o universo da Polícia Civil, percebemos também um enorme potencial para o humor. E isso acabou se tornando parte fundamental da linguagem da série.
Como viram a explosão da série nas sessões do festival de Brasília? O que de mais entusiasmante ouviram?
Lacca — Foi muito especial. Muita gente veio falar com a gente depois da sessão, e uma das coisas que mais ouvimos foi: "Pelo amor de Deus, eu quero ver os outros episódios!". As pessoas estavam muito envolvidas, muito curiosas para saber o que aconteceria depois. Ficamos muito felizes com essa recepção. Também foi especial poder exibir uma obra que foi concebida inicialmente para a televisão numa sala de cinema. Quando fizemos a série, não imaginávamos que teríamos essa oportunidade. E foi uma experiência muito forte perceber como ela funcionava coletivamente, com as pessoas reagindo juntas, rindo, acompanhando as situações. Na verdade, fizemos a série com um espírito muito cinematográfico. Então foi bonito perceber como ela também encontrou seu lugar na tela grande.
