Crônica

O papa sem túnica

Paulo Pestana gostava de chamar os amigos (próximos) de "falsinho", uma brincadeira associada a uma suposta característica dos nascidos, como ele, sob o signo de Áries

 Jornalista Sylvio Guedes. -  (crédito:  Arquivo Pessoal)
Jornalista Sylvio Guedes. - (crédito: Arquivo Pessoal)
postado em 29/03/2024 10:52 / atualizado em 29/03/2024 12:02

Por Sylvio Guedes — 

Quando comecei a trabalhar no Correio Braziliense, no longínquo ano de 1983, tudo era muito diferente de hoje. Mas eu já era amigo do Paulinho, o Paulo Pestana da Silva Filho — marido da Zelinda, irmão do Norton, pai do Rafael e do Pedro, meu compadre, colega de trabalho e parceiro de ofício. Aqui vão umas mal traçadas linhas sob a inspiração (e até meio no estilo) daqueles anos 80 que forjaram a melhor geração de jornalistas do DF.

Paulinho, vale esclarecer ao eventual heroico e desatento leitor que ainda me segue até este segundo parágrafo, é o cara que, até outro dia, ocupava este espaço. O jargão diz que ele escrevia crônicas -- um texto falando de um assunto qualquer, de um mero evento da vida cotidiana aos mais históricos fatos, contendo impressões pessoais.

Gostava de chamar os amigos (próximos) de “falsinho”, uma brincadeira associada a uma suposta característica dos nascidos, como ele, sob o signo de Áries. Então, para não parecer “falsinho”, não vou aqui enumerar as suas virtudes de escriba e de caráter. Seria chover no molhado.
Falar de assuntos aleatórios -- como fazia aqui no Correio -- era moleza para o Paulinho. Mas não confundam alhos com bugalhos. Ele não era nenhum Rolando Lero, aliás detestava textos que, como costumava dizer, pareciam “pastéis de vento”, ou “miolos de pote”. O que não é moleza é toda semana saber escrever histórias gostosas de se ler.

O que estaria por trás desse superpoder? Muitos atribuem à sua vasta cultura geral -—rótulo que, estou certo, ele descartaria com um gesto blasé que não esconderia a — lá vem… — falsa modéstia. Ele não era erudito, mas o desavisado poderia achar que sim. Fato é que Paulinho era meio renascentista. Conheço uns caras assim, que sabem fazer muito bem um monte de coisas diferentes -- tocar um instrumento, escrever, desmontar motores de carros, adestrar unicórnios, sei lá.

Mas ele, claro, não nasceu renascentista. Foi melhorando com o tempo, aprendendo, aperfeiçoando seus múltiplos ofícios. Seu “segredo” era observar e ouvir muito, ainda que por vezes não desse essa impressão — aqueles olhos de sono eram enganadores. Nesta evolução, tenho certeza, foi a generosidade dele que o catapultou muito acima da manada. Sabia delegar, sabia confiar, sabia ensinar e, melhor ainda, sabia aprender e sabia errar. Sim, errava pra caramba, como todo mundo. Mas tinha um jeito muito próprio de levar as coisas ao lugar certo mesmo quando pegava um caminho errado.

Nunca teve saco ou disposição para as redes sociais virtuais. Afinal, vivia para lá e para cá, produzindo, articulando, criando, envolvido com pessoas e situações reais. Não era o primeiro a chegar nem o último a sair de nada. Nem em reuniões profissionais, nem em rodas de chope, nem em churrascos na sua própria casa.

Na última vez em que ele me chamou para trabalharmos juntos, foram dois anos de uma aventura inesquecível, uma convivência que ia da reunião de pauta no meio da manhã até o “fechamento” nas mesas de bar ou comendo pizzas no Baco do Gil Guimarães. Sempre nos acompanhavam repórteres, fotógrafos, jovens e veteranos. Dentro ou fora da redação, Paulinho nunca desejou reverências. Um papa sem pompa e circunstância.

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