
Por Graça Seligman
É inacreditável que o artista Athos Bulcão, um dos maiores expoentes de Brasília, cuja obra embeleza a cidade inteira, seja tão pouco reconhecido e homenageado em nossa capital. Athos é o artista maior do grupo de criadores que desenhou, planejou e construiu Brasília, e sua obra deve ser exaltada, assim como todas as grandes cidades do mundo fazem com seus artistas. Em todo o mundo, as cidades são conhecidas pela essência da criação cultural a elas associada, reconhecidas por aqueles que as transformaram em ícones de um certo tempo e de uma dada geografia.
Os exemplos são muitos e as artes são diferentes para cada uma delas. Roma é a cidade de Michelangelo, com suas obras-primas como a Capela Sistina e a escultura de Moisés. Paris é a cidade de Claude Monet, um dos fundadores do impressionismo, símbolo da rica tradição artística parisiense. Nova York é a metrópole do mundo a partir de Andy Warhol, com seu papel central no movimento da pop art, sem esquecer que foi Frank Sinatra quem cantou o hino de amor que a consagrou. A Pequim contemporânea foi mostrada ao mundo pela obra de Ai Weiwei, um artista contemporâneo conhecido por suas instalações e ativismo político. Madrid é a cidade onde as obras de Francisco Goya e Pablo Picasso, dois dos mais importantes pintores espanhóis, estão expostas. Aqui perto, associamos Buenos Aires a Astor Piazzolla, com seu revolucionário tango novo, e a Jorge Luis Borges, uma figura central na literatura mundial. O Rio de Janeiro é a cidade cantada por Tom Jobim, um dos criadores da bossa nova, símbolo musical do Rio. São Paulo é conhecida mundo afora como a cidade dos Gêmeos, uma dupla de artistas de rua, conhecidos mundialmente, e pela música "Sampa", de Caetano Veloso, baiano com forte ligação com a cena cultural paulistana.
E Brasília? Brasília é a cidade de Athos Bulcão, com suas mais de 260 obras catalogadas no Distrito Federal. Convivemos com o imenso repertório de Athos desde o Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, passando pela Catedral Metropolitana, pelo Congresso Nacional, chegando ao Palácio do Planalto, fazendo parte da belíssima Igrejinha Nossa Senhora de Fátima da EQS 307/308, do Palácio do Itamaraty e do Palácio da Alvorada, quase todas em azulejos geométricos que se harmonizam com a estrutura modernista e se integram com o paisagismo de Burle Marx e a arquitetura de Niemeyer. Athos Bulcão também tem trabalhos no pioneiro Brasília Palace Hotel, no Cine Brasília e no Teatro Nacional, além de inúmeras obras em edifícios privados que servem de moradia e trabalho para a população brasiliense. Importante lembrar que, assim como artistas de seu padrão no mundo inteiro, Athos tem trabalhos de intervenção em espaços públicos como o Parque da Cidade, a UnB e a Escola Classe 407 Norte.
Duvido que algum dos artistas referenciais das cidades mencionadas no início tenha tantas obras e tanta relação com as cidades que impregnaram com sua arte como Athos Bulcão tem com Brasília. Onde está o espaço memorial de Athos Bulcão? Onde a cidade homenageia seu artista como, com justiça, criou espaços para celebrar outros grandes criadores como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Israel Pinheiro e Darcy Ribeiro? Todos possuem seus espaços consagrados, refletindo seus legados imortais. Athos Bulcão, com seu impressionante legado cultural, merece o mesmo reconhecimento e um espaço que honre sua contribuição à arte e à identidade brasiliense.
A cidade que ainda mantém fechada - há mais de 11 anos - a sala Villa Lobos do Teatro Nacional, com o magnífico jardim interno de Burle Marx, tem que se comprometer com as novas gerações e reabrir as salas fechadas do nosso teatro maior e criar um memorial que sirva de sede para a Fundação Athos Bulcão, modestamente instalada em nossa cidade. O que é alarmante é a falta de urgência na atenção às nossas riquezas culturais. Essa negligência é completamente inaceitável.
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