Por Maria Lucia Verdi-Até agora consegui ver apenas três dos 23 espetáculos do Cena Contemporânea, festival de dança, teatro, música e reflexão sobre as artes, que comemora 30 anos de atuação e resistência, trazendo para Brasília artistas de distintos países. O festival abre janelas de interlocução artística com realidades culturais e sociais diferentes, respiros estéticos vitais neste momento dramático para a história nacional e universal. Guilherme Reis, nosso respeitado ex- secretário de Cultura e sua incrível companheira, a atriz Carmen Moretzsohn, com apoio da Petrobras, da MinC, da CEF e a indispensável colaboração de Gioconda Caputo, montaram um festival digno da comemoração.
Os eventos — teatro, dança, música, oficinas, seminários, residências, atividades formativas, leitura dramática e debates — têm três eixos temáticos centrais, me parecendo norteador o da "Arte por sujeitos periféricos a contrapelo das violências". Absolutamente oportuno tratar, ver, escutar, o que os sujeitos 'à parte' pensam e criam, os deserdados da terra que se manifestam mais e mais, e melhor, resistindo a todo tipo de violência e propondo adentrar nossa visão do mundo nas vozes do sangue e da dor dos excluídos social ou existencialmente.
"Verdar", de autoria do chileno Nicolás Lange, com direção brilhante de Paula Gho e atuação da notável atriz Mariana Loyola, foi uma surpresa e um desafio — um texto complexo, híbrido, provocador. Lange criou o verbo verdar para "confessar uma verdade que causa dor". Dar a verdade, com dor. A palavra "verde" é logo introduzida no texto, numa associação inusitada: a da cor verde à tristeza e à natureza. A partir daí é feita uma analogia com o sul do Chile, região belíssima, mas repleta de reacionários e nazistas, bem como com outras regiões do Sul da nossa América, com características semelhantes.
Mas o tema central é a morte da mãe da protagonista (uma regente de orquestra) e a tentativa de suicídio desta em um lago gelado, — tudo entremeado por música, sons da natureza e fragmentos de memória. Somos mobilizados por um concerto salvador e catártico, feito com o uso da água e música em off comandada pela regente. Beleza e sofrimento.
"Seré" (Serei), criada a partir da voz gravada durante o depoimento de um ator e preso político argentino no julgamento da junta militar argentina, em 1985, é genial. Lautaro Delgado Tymuk interpreta com o corpo e a boca — um ventriloquismo ao contrário - sem pronunciar um som, a fala do depoente Guilherme Fernandez. Fernandez consegue escapar com os companheiros da tenebrosa Mansão Seré — hoje a "Casa da Memória e da Vida"— graças ao uso de um só prego, com o qual abrem uma janela. No final da impressionante interpretação, que recebeu o prêmio de Argentores 2024 para o melhor Teatro Documental, cada um dos espectadores recebe um prego. Que tenhamos pregos para escapar do que nos quer engolir, encerrar, excluir.
A Argentina fez as contas com o que ocorreu durante a ditadura militar e bradam Nunca Más! em cada obra e espaço que recorda o que ocorreu e comemora o retorno à democracia. Cultivar a memória histórica, assimilar suas lições, é algo que devemos ainda aprender e isso só é possível a partir da análise e julgamento do passado, do passar a limpo na esperança de um futuro mais transparente e equânime. Em Buenos Aires, num dos prédios onde milhares foram torturados e mortos, a Esma, hoje existe o Espaço Memória e Direitos Humanos.
Cena Contemporânea consegue, enquanto dura, mobilizar uma cidade que sofre da falta de espaços culturais, com o fechamento de vários teatros, e que ainda aguarda a reabertura da antológica Sala Villa Lobos. É emocionante ver a festa distribuir-se por tantos pontos da cidade, trazendo dinamismo, interlocução, vivacidade cultural ao centro do poder. Uma cidade que poderia estimular mais, por meio do maior diálogo com as embaixadas, a vinda de pensadores e artistas estrangeiros, para o que poderia vir a ser um intercâmbio frutífero.
Debates, trocas de ideias que poderiam ser feitos na silenciosa Biblioteca Nacional, a qual poderia, com um pouco de esforço, receber coleções de obras raras de brasileiros e estrangeiros; bem como nos teatros do Museu da República, locais de fácil acesso que deveriam incentivar a discussão sobre as artes, algo que é proposto num dos eixos temáticos do Cena deste ano: " Processos de formação são processos de criação".
