Artes cênicas

O silêncio e os não ditos conduzem a dramaturgia de diatribe do amor

Peça de Juliana Zancanaro explora o perigo dos silêncios nas relações amorosas

Montagem de texto da única peça escrita pelo autor colombiano Gabriel García Márquez, a peça Diatribe de amor está em cartaz até domingo (22/2) no Teatro Silvio Barbato, Sesc do Setor Comercial Sul. Encenado pela atriz Juliana Zancanaro, o trabalho está em circulação pelo DF desde o ano passado e é fruto de um projeto apresentado em 2016 durante o doutorado do diretor, André Aires. "A peça não tinha tradução ainda em português e ele traduziu durante um doutorado", conta Juliana, que já levou a peça ao México para um congresso de teatro no qual apresentou o texto original, em espanhol.

No palco, uma mulher reflete sobre o próprio casamento, longevo porém sofrido. O texto traz para o teatro questões que giram em torno do sofrimento nos relacionamentos, do silêncio e da violência psicológica. "É um texto que parece datado, porque se passa no fim dos anos 1970, escrito nos anos 1980: uma briga de casal, com a mulher muito doída nesse lugar", conta Juliana. "E, infelizmente, a gente vai vendo como é um texto ainda muito atual, toca muito os casais, no lugar do não dito, o perigo das coisas não ditas, os minúsculos incômodos do cotidiano que, se não conversados, vão virando grandes problemas. E qual não é o problema da falta de comunicação no mundo, em todas as esferas?".

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Os não ditos nas relações são a questão central de Diatribe de amor, uma espécie de ponto de partida que ocasiona todas as vivências da personagem. Juliana explica que isso parece muito específico de uma relação, mas não é. "Ainda muito comum, as novas gerações ainda fazem isso", lamenta. "É o entendimento estrutural mesmo, o que a gente chama de machismo estrutural, o entendimento que, ao masculino, não é dada a fala, não se pode falar de sentimentos, não se pode mostrar vulnerável, não se pode abrir o coração. Tem sido muito interessante ver as plateias sendo tocadas por essa questão, entendendo muito essa questão", conta a atriz, que gosta de ouvir os depoimentos ao final das apresentações e fica surpresa com a quantidade de histórias semelhantes à da peça.

 


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