cronica

Brasília tem agenda. Falta ambição

Há cidades que exibem cultura como quem exibe musculatura. São Paulo faz isso com prazer e algum sadismo: oferece tanto que obriga o cidadão a escolher com culpa

Por José Manuel Diogo—No próximo fim de semana, Brasília volta a oferecer um pequeno retrato de si mesma: ABBA The History no Ulysses, no sábado, a ópera barroca Venus and Adonis no Sesc Gama, no sábado e no domingo, e o CCBB com a sua coleção permanente e a mostra dos 25 anos abertos ao público. É uma agenda real, verificável, diversa. E justamente por isso revela mais do que parece.

Há cidades que exibem cultura como quem exibe musculatura. São Paulo faz isso com prazer e algum sadismo: oferece tanto que obriga o cidadão a escolher com culpa. O Rio prefere outra encenação: transforma a própria cidade em espetáculo e deixa que o resto venha por gravidade. Brasília não é nenhuma dessas duas. Brasília tem uma virtude menos fotogênica e mais civilizada: aqui, a cultura ainda cabe no tempo da vida.

Esse é o fato. A tese é outra. Uma cidade que, no mesmo fim de semana, consegue juntar pop sueco, barroco inglês e acervo de arte brasileira já possui base cultural suficiente para deixar de se pensar como mera capital administrativa. O problema é que Brasília ainda se comporta como sede. Sede do poder, sede da República, sede de reuniões intermináveis e crachás infelizes. Falta-lhe a ambição de se ver como plataforma. E deveria tê-la. 

Há meses venho sustentando que Brasília teria muito a ganhar com o aumento da conectividade regional no espaço do Mercosul. Continuo a pensar o mesmo. Mas, talvez, o ponto mais importante ainda esteja subestimado: conectividade não majora apenas comércio, diplomacia e circulação de negócios. Majora também indústrias culturais. Onde cresce o fluxo de pessoas, instituições, redes académicas, encontros regionais e articulação internacional, cresce a necessidade de livro, festival, música, audiovisual, curadoria, tradução, formação, pensamento. Cultura segue fluxo com a mesma disciplina com que o dinheiro segue oportunidade.

Brasília tem quase tudo para isso. Tem embaixadas. Tem universidades. Tem estrutura urbana. Tem escala institucional. Tem público. Tem equipamentos culturais capazes de sustentar uma política de internacionalização séria. O que não está ainda bem afinado é um amor-próprio estratégico.

E o amor-próprio das grandes cidades — como o dos grandes escritores e artistas— nunca foi bazófia. É consciência de forma. Um grande escritor não se gaba: escreve uma frase que obriga o mundo a prestar atenção. Brasília, até agora, tem boas frases soltas. Falta-lhe o parágrafo final arrebatador.

Se quisesse, o Planalto Central poderia tornar-se o ponto natural de encontro entre Brasil, Mercosul, Portugal e a comunidade lusófona e latina, não como fantasia diplomática, mas como ecossistema. Uma capital onde cultura e geopolítica deixassem de se ignorar. Uma cidade que não apenas recebe agenda, mas exporta centralidade.

Por enquanto, Brasília oferece bons fins de semana. Isso é bom? É . Mas é melhor do que parece e menos do que poderia ser.

O seu futuro cultural, talvez, dependa apenas disto: perceber que já não é mais periferia simbólica de si mesma. São as dores de crescimento.

 


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