
Fazia muito tempo que eu não enfrentava alguns quilômetros do Eixão do Lazer aos domingos. Pois um passeio despretensioso depois do almoço me fez sentir um pouco mais brasiliense. Se várias regiões administrativas têm suas tradições, a de Brasília tem nas barraquinhas e no movimento do Eixo Rodoviário aos domingos e feriados sua festa popular.
A preparação já começa no sábado. O Eixinho — que vai ficar sobrecarregado no domingo, coitado — recebe cones do Detran, letreiros com advertências aos motoristas e alguns toldos que vão se transformar em palcos para as diversas manifestações culturais. Movimento de carga e descarga, planejamento "com" e "sem chuva", estudo minucioso de como armar cada atração.
Sempre me impressiono com a diversidade de comida. Das mais típicas às mais triviais, tem de tudo. Há quem duvide de um acondicionamento eficiente dos alimentos que chegam cedinho e prefira o que não precisa ser preparado, como cerveja artesanal. Eu sou dos que pago para ver as consequências, se a comida atrair os meus olhos, em primeiro lugar. Resultado de anos de sarapatel nas feirinhas do Recife, a terra da minha família, comido no pratinho de plástico.
E haja criatividade para chamar a atenção dos passantes, que já estão lá nas primeiras horas de sol. Domingo passado, vi um sujeito fantasiado de banoffe para vender seu produto. Elogiei a disposição, mas não cheguei a provar a iguaria.
A pé, de bicicleta, patinete ou outras "rodinhas", a população aproveita qualquer brecha de sol para fingir que está na praia, colocar a menor quantidade de roupa possível e ir se exercitar. Alguns parecem que estão num triátlon. Outros chegam mais relaxados, dispostos a aproveitar a paisagem e os encontros.
Nem sempre a convivência entre os vários modos de estar no Eixão do Lazer é pacífica. Sempre tenho a impressão, por exemplo, de que as bicicletas se excedem na velocidade, e muitos ciclistas fazem cara feia para os pedestres que andam em grupos. O cuidado com crianças e idosos também, muitas vezes, deixa a desejar. Não é possível que, em uma pista de seis faixas mais o canteiro central, não haja espaço para um encontro amigável e sem perigo iminente.
Também não é totalmente pacífica a convivência entre os moradores das superquadras vizinhas e os promotores da festa popular. Entendo quem se sente incomodado com som alto e gritaria perto de casa justamente no dia de descanso. Mas torço para que, aos poucos, todos deem seu jeito para que um ceda de um lado, outro ceda de outro, e o equilíbrio possa ser alcançado.
É naquele pedação de asfalto que o brasiliense experimenta uma proximidade que não temos em outros espaços: em geral não somos amigos dos vizinhos, muitos não têm familiares na cidade, e as relações de trabalho possuem uma força incomum. Por isso, viva o Eixão do Lazer! Quem sabe um dia ele não se torna Patrimônio Imaterial de Brasília, igual a tantas manifestações populares de outras partes do país?

Diversão e Arte
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