Crônica

O Beirute, 60 — e eu por perto

Durante anos, meu relógio funcionava assim: 10 da noite eu saía de casa e só voltava quando o balde da limpeza começava a lavar o chão e, de quebra, os nossos pés

O ator João Antônio é uma das personalidades locais que celebra a retomada do teatro na cidade -  (crédito: Carlos Vieira/ CB DA Press )
O ator João Antônio é uma das personalidades locais que celebra a retomada do teatro na cidade - (crédito: Carlos Vieira/ CB DA Press )

Por João Antõnio—O Beirute não é só um bar. Nunca foi. Para mim, sempre foi uma espécie de extensão da casa — só que melhor, porque tinha gente, tinha conversa e tinha vida pulsando em cada mesa. Cheguei a Brasília em 71, meio sem saber direito o que ia ser de mim. Mas bastou dobrar aquela esquina pela primeira vez para entender que alguma coisa ali ia me acompanhar por muito tempo. E acompanhou.

Durante anos, meu relógio funcionava assim: 10 da noite eu saía de casa e só voltava quando o balde da limpeza começava a lavar o chão e, de quebra, os nossos pés. Eu já atravessava a rua com a certeza: o Cícero ia estar lá, com o chope me esperando. Gelado, no ponto, como se adivinhasse. E tinha a tal da mesa da diretoria — a primeira à esquerda.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

 Aquilo ali não era só uma mesa, era quase uma instituição. Se estivesse ocupada por alguém "de fora", bastava um paninho meio suspeito entrar em cena e a clássica pergunta: "Desejam mais alguma coisa?" Pronto. Em segundos, a mesa voltava para quem era de direito. E, aí, começava o espetáculo. Gente de todo tipo: ator, bailarina, músico, jornalista, poeta — e também os que não eram nada disso, mas eram tudo ao mesmo tempo.

Tinha papo furado e conversa séria, discussão sobre política, análise de peça, fofoca, filosofia de mesa de bar. Tudo junto, tudo misturado. Aniversário? Virava evento coletivo. Não importava quem fosse — o bar inteiro cantava parabéns. E, vez ou outra, sempre tinha um mais animado que subia na mesa para um strip tease meio improvisado. Durava pouco, claro. Mas o suficiente para virar história. Era tempo de ditadura. A gente vivia com a tensão grudada na nuca.

Mas, ali dentro, dava uma sensação boa de liberdade —meio ilusória, talvez, mas necessária. Até que alguém cochichava: "Baculejo." E pronto. O clima mudava. Conversa mudava. O riso diminuía. Mesmo assim, a gente ficava. Sempre um pouco além do horário, além do permitido, além do juízo. Teve uma vez que um garçom, sem ter ideia do que estava fazendo, pegou o violão do pessoal do Liga Tripa e jogou no meio da rua.

Mal sabia ele que aquele grupo ainda ia virar símbolo da alegria da cidade. Coisas do Beirute — mistura de caos com destino. E o mais curioso: gente famosa não tinha muito ibope ali, não. Se aparecesse demais, alguém já soltava: "Olha o fulano de novo…" E ficava por isso mesmo. Agora, se insistisse, acabava virando da casa. Quando via, já estava sentado na mesa da diretoria, como qualquer um de nós.

Eu vivi muita coisa ali. Flertes, amores, paixões rápidas e outras nem tanto. Algumas decepções também, claro — faz parte do pacote. Mas, acima de tudo, vivi. Sessenta anos do Beirute… e oitenta meus.Se for fazer as contas, a gente cresceu junto. E olha, vou te dizer: tem pedaço de mim naquela esquina até hoje. Parabéns, velho amigo.E parabéns para nós, que tivemos o privilégio de sentar à mesa e fazer parte dessa história.

 


  • Google Discover Icon
postado em 24/04/2026 07:00
x