cronica

Direito ao cochilo

O Brasil não precisa da siesta, pois aqui temos o nosso simpático cochilo, que pode ser antes ou depois do almoço, ou ainda no meio da tarde

Por Beto Seabra—Na única vez que fui a Madri, fiquei curioso para conhecer como funciona a famosa siesta espanhola. Mas, na correria de turista aprendiz, não consegui sentir aquela parada pós-almoço que obriga o comércio a fechar por duas horas para permitir que as pessoas façam o que qualquer bicho faz desde a origem do mundo: descansar após as refeições.

O Brasil não precisa da siesta, pois aqui temos o nosso simpático cochilo, que pode ser antes ou depois do almoço, ou ainda no meio da tarde. E, para o cochilo, não precisamos obrigatoriamente de uma cama. Uma boa poltrona já pode servir, ou qualquer plano confortável: um chão limpo, um pedaço de grama na sombra ou até um banco de jardim debaixo de uma árvore. Sem contar a rede, criada por nossos ancestrais indígenas, que é o lugar ideal para um repouso.

"Cochilo" não é uma palavra herdada dos portugueses, mas sim dos africanos — assim como "cafuné" e "dengo". Aliás, fazer dengo para ganhar um cafuné na hora do cochilo é o trio irresistível da nossa cultura recebida do povo negro. Só que, por aqui, venceu o modelo fabril, herança de ingleses e, depois, de norte-americanos, com jornadas de trabalho extenuantes onde o cochilo não é apenas desincentivado, mas punido com broncas ou até demissão.

Eu, sempre que posso, tiro meu cochilo, antes ou depois do almoço. Não precisa de muito: meia hora basta. O corpo e, principalmente, a cabeça descansam. Acordamos mais bem-humorados e prontos para o que der e vier.

Fico pensando em quem trabalha seis dias por semana, em média oito horas por dia, sem lugar nem tempo para um descanso. Deve ser uma tortura. "Deve" não, é — pois já trabalhei assim, inclusive virando noites no fechamento de jornais.

Fala-se em criar a jornada de cinco dias de trabalho com dois de folga. Mas isso é para ontem! Já é hora de pensar na jornada de quatro dias de trabalho e três de descanso, como muitos países estão fazendo. Mais tempo de lazer é sinônimo de mais felicidade. E não é isso que desejamos diariamente, para nós e para os outros a quem queremos bem? Além disso, a economia do lazer é a que mais gera emprego e renda. As pessoas seriam mais felizes, e o país ainda lucraria com isso.

Sabemos que, no Brasil, existe um pequeno grupo que trabalha pouco ou nada, ganha muito e vive do rentismo. Devem ser essas as pessoas contra o fim da jornada 6x1. Afinal, se todos trabalharem o que é justo, eles, os "eleitos", precisarão trabalhar um pouco mais e parar de viver apenas de rendas.

O povo que inventou a palavra cochilo — que veio do quimbundo, uma das línguas faladas em Angola — sabia que, nas horas mais quentes do dia, não vale a pena "forçar a barra". É melhor parar, descansar e voltar revigorado para o batente quando o tempo esfriar.

Então, que o nosso amado cochilo passe a ser um direito, não necessariamente previsto em lei, pois isso nem sempre funciona, mas pelo menos nos costumes, como fizeram os espanhóis.

 


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