cronica

Pra ver a banda passar

Fomos acordados por uma dessas bandas militares, que cruzou a rua que fica entre os blocos J e H da quadra, tocando A Banda, do Chico Buarque

Por Beto Seabra—Não me perguntem o dia e o ano. A década, eu posso garantir. Eram meados dos anos 1980. A superquadra em que eu morava completava duas décadas de existência e, para festejar, a prefeitura programou uma série de jogos e brincadeiras, para as crianças e os jovens, além de um festival de sorvetes. Mas o que me marcou naquela data foi a abertura das comemorações, que aconteceu em um sábado bem cedo, mal o sol despontou. 

Fomos acordados por uma dessas bandas militares, que cruzou a rua que fica entre os blocos J e H da quadra, tocando A Banda, do Chico Buarque. Acordar com música que a gente gosta é sempre bom, mas nesse caso a emoção foi indescritível.  Aquilo que está na letra, de certa forma, ocorreu embaixo das nossas janelas, pois eram poucas as pessoas que estavam na rua naquela hora. 

Não havia estrelas para contar, mas tenho certeza que vi uma moça triste que vivia calada sorrir. Era a minha vizinha de janela. E as poucas rosas tristes que estavam fechadas se abriram, por causa do sol e da música, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor.  

E como na música, a meninada toda se assanhou, para ver a banda passar, cantando coisas de amor. Um velho que morava no andar de cima, e que sabia a letra de cor, também se esqueceu do cansaço e cantou, a plenos pulmões, a música do Chico.

E se havia gente sofrida, com a passagem da banda todos se despediram da dor, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor. Deveria haver, em algum lugar daquela quadra, algum homem contando dinheiro, que parou para ver a banda passar. 

Não havia faroleiro para contar vantagens, mas juro que vi o porteiro do prédio vizinho, um senhor bem sisudo, dançar embaixo do bloco. E uma senhora que se preparava para atravessar a rua, em direção à padaria, parou para ver, ouvir e dar passagem.

E como na letra da música, no final da apresentação, o que era doce acabou. As pessoas fecharam as janelas e voltaram para suas camas, depois que a banda passou. Com exceção das crianças, claro, que ficaram tão excitadas que foram para o pilotis do bloco, ver de perto os instrumentos da banda, que reluziam ao sol da manhã.

Sempre que me acordam com boa música, eu me lembro daquela remota manhã de sábado. O dia em que cada qual saiu do seu canto, e em cada canto uma dor, para ver a banda passar, cantando coisas de amor.

P.S: Fiquei sabendo que moradores antigos e atuais da SQN 312, a quadra onde tudo aconteceu, se preparam para comemorar em setembro próximo os 60 anos da quadra. Que seja uma bela festa, como foi aquela que resiste na minha memória.

 


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