A história de João Cândido, o filho de ex-escravizados que liderou a Revolta da Chibata em 1910, é o tema do monólogo Almirante Negro — Mestre Sala dos Mares, que estreia nesta sexta-feira (22/5) no Teatro Sesc Newton Rossi, em Ceilândia, sob a direção de Ricardo César. No papel de um dos heróis mais desconhecidos e corajosos da história brasileira, o ator maranhense Otto Caetano conta uma história que evoca o almirante que tomou a frente da luta pelo fim dos castigos físicos aplicados aos marinheiros no início do século 20.
Baseada em um resgate da ancestralidade, a dramaturgia não acompanha a biografia de João Cândido, mas mergulha em todo um universo de heróis que semeiam o caminho para o surgimento do almirante. "O texto não é um texto biográfico, a gente pega João Cândido, personagem da história, e constrói a dramaturgia dentro da ancestralidade, contando quem foram as pessoas que o antecederam para que ele tivesse a força que teve naquele período histórico", explica o diretor. "A gente faz uma invocação aos antepassados dele, não necessariamente de linhagem sanguínea, mas de personalidades históricas".
Nessa lista de antepassados entram nomes, como o do índio Tibiria do Maranhão, executado em 1614 ao ser acusado de sodomia, dos líderes quilombolas Dandara e Zumbi dos Palmares e Tereza de Benguela e do advogado Luiz Gama. "A dramaturgia nasce a partir desses ancestrais da terra mãe, que é a África, que forjaram João Cândido, essa figura histórica e nunca reconhecida como herói", conta Ricardo César. Os castigos físicos, incluindo as mesmas chibatadas destinadas aos escravizados durante séculos, eram aplicados rotineiramente nos marinheiros da Marinha Brasileira no início do século 1910, embora a prática já estivesse suspensa no início da República. Mais de 90% desses marujos eram negros e esse tipo de punição perpetuava uma das maiores violências da escravidão, cuja abolição acontecera menos de duas décadas antes.
A Revolta da Chibata era um movimento pelo fim dessas punições cruéis que, no fundo, refletiam uma sociedade profundamente ancorada num regime brutal de opressão e dominação dos negros. "Durante o trabalho da dramaturgia, questionamos por que o João Cândido, um homem negro, filho de escravizados, não foi reconhecido, até hoje, por uma força militar como um herói", diz o diretor. "E como temos um ex-presidente que atentou contra o militarismo e até hoje tem a patente, só aí já escancara o abismo racial de nossa sociedade. João Cândido brigou pela não violência."
Serviço
Almirante Negro – Mestre Sala dos Mares
NEsta sexta-feira (22/5), às 9h e às 14h30, e sábado (23/5), às 19h, no Teatro SESC Newton Rossi (QNN 27 Área Especial Lote B Ceilândia). Ingressos gratuitos. Não recomendado para menores de 14 anos
