Tinha uma ideia antiga que, pelo menos para mim, parecia genial. Todo mundo já perdeu uma caneta que nunca mais foi encontrada. Imaginei fazer um filme de animação que mostraria uma espécie de "reino das canetas perdidas", contando uma história que seria também uma metáfora do mundo.
Cansados de servir aos humanos e nunca serem reconhecidos, uma legião de objetos formada por canetas, lápis, borrachas, apontadores, pedaços de réguas etc. decide se rebelar e fugir. Vão habitar um mundo perdido que fica entre o sofá e a parede da sala, um lugar inalcançável para os olhos e as mãos humanas.
Eu pensava que a ideia era nova, até me deparar com uma crônica de Luis Fernando Verissimo na qual ele fala de sapatos. Após perder um dos calçados dentro do cinema, ele disserta sobre esse hipotético mundo dos sapatos perdidos, sempre com muito humor e inteligência.
Canetas e sapatos são muito diferentes. Dificilmente alguém roubaria um sapato de alguém no cinema, até por certa solidariedade pedestre. Mas as canetas foram feitas para serem roubadas, especialmente se forem Bic. Baratas e indiferenciadas, as canetas esferográficas são a marca de uma sociedade que se quis igualitária, mas falhou.
Outra coisa que perdemos facilmente são os guarda-chuvas. E, como em Brasília chove seis meses por ano e nos outros seis meses impera a seca, quando as primeiras gotas começam a cair na cidade, o brasiliense tira o guarda-chuva do armário e acaba esquecendo o objeto no primeiro lugar em que para, pois não está habituado a andar com aquilo para lá e para cá.
Mas o que mais tenho perdido ultimamente não são canetas, sapatos ou guarda-chuvas, mas sim, a paciência. Não que eu seja um Seu Lunga, aquele personagem real do Ceará que tinha sempre uma resposta mal-humorada para uma pergunta óbvia. Minha falta de paciência é com as novíssimas tecnologias que surgem a cada dia e tentam nos passar para trás.
Dia desses, fiquei quase uma hora trocando mensagens com um atendente do seguro que, na verdade, era um perfil de inteligência artificial. Tenho certeza de que, se o contato fosse com alguém real, o problema seria resolvido em poucos minutos.
Acredito que a economia que as empresas estão tendo ao trocar seres humanos por máquinas vai acabar dando errado. Afinal, para sobreviver, o mercado precisa de gente, não apenas vendendo, mas principalmente, comprando.
No livro Quincas Borba, de Machado de Assis, os vencedores levam como prêmio as batatas. É o princípio do Humanitismo, no qual os mais fortes sempre vencem para que a humanidade se perpetue, pois não haveria batatas para todos. Irônico, como sempre, Machado deixa aos vencedores meras batatas.
Em plena terceira década do século 21, as coisas parecem se inverter. Com tanta tecnologia enlouquecendo a todos e retirando do ser humano o próprio sentido de convivência e diálogo, além da saúde física e mental, começo a acreditar que aqueles que perderem o bonde tecnológico, na verdade, vencerão, e os que ganharem essa corrida, ou acharem que estão ganhando, serão derrotados. Ao perdedor, as batatas!
