CINEMA

Pedro Almodóvar estreia a autoficção "Natal Amargo"

Diretor retorna aos cinemas, em espanhol, com o longa de autoficção "Natal Amargo", que estreou em Cannes

 O diretor espanhol Pedro Almodóvar recebe o Leão de Ouro com o filme
O diretor espanhol Pedro Almodóvar recebe o Leão de Ouro com o filme "La Habitación de al lado" - (crédito: AFP)

Um dos mais talentosos diretores da história do cinema estreia mais um longa esta semana. O espanhol Pedro Almodóvar leva às telonas Natal amargo, filme com uma mistura de ficção e realidade. Com participação no Festival de Cannes, o longa saiu sem estatuetas, mas marcou uma aproximação maior do cineasta ao que havia feito no auge da carreira.

Em Natal amargo, duas histórias se misturam. A publicitária Elsa, interpretada por Bárbara Lennie, utiliza o trabalho para lidar com o luto da morte de sua mãe. Em decorrência da pressão e do trabalho excessivo, Elsa passa por um ataque de pânico e viaja para as Ilhas Canárias, com objetivo de relaxar. Do outro lado da trama está Raúl Durán, interpretado por Leonardo Sbaraglia, diretor e roteirista, que tem dificuldade de separar realidade de ficção.

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O personagem de Leonardo Sbaraglia é um espelho do próprio Almodóvar. Na época de divulgação do filme, críticos citaram que o diretor iria falar consigo mesmo em Natal amargo, debatendo os temores de um cineasta em busca de novas histórias e de se manter no jogo. Em entrevista ao Correio, Sbaraglia conta que o diretor deixou muito claro que o filme era uma autoficção.

"Essa foi a primeira coisa que Pedro Almodóvar me disse. 'Sou um grande admirador, disse-me, 'de Emmanuel Carrère, que trabalha muito, pesquisa bastante e se dedica muito ao tema da autoficção', e completou: 'Tenho trabalhado nisso em vários filmes e me interessa muito, e não quero que seu personagem invista em um retrato amigável'. Ele não queria um retrato lisonjeiro do seu personagem", contou Leonardo Sbaraglia.

O ator destaca que Pedro Almodóvar conseguiu dar vozes a muitas pessoas que não a tinham. O diretor começou a produzir os projetos durante a Movida Madrileña, momento de efervescência cultural na Espanha pós-ditadura de Francisco Franco. Desde o início, com lindos enquadramentos e cores vibrantes, o espanhol dirigiu filmes sobre identidade e sexualidade; e sempre trouxe personagens marginalizados e histórias voltadas ao underground.

Leonardo Sbaraglia destaca que, em conversa com Almodóvar, o diretor lembra que diversas pessoas já chegaram nele para contar que encontraram coragem para viver de forma mais livre por meio de seus filmes. "As mulheres (representadas no cinema dele) conseguiram alcançar o feito X ou Y. Ele trouxe para seu trabalho, para seus filmes, para personagens que, de repente, conseguiram ter corpo e alma. Ele conseguiu criar uma espécie de representação visual para uma enxurrada de pessoas que não tinham voz, nem voto. Isso me parece algo enriquecedor", comenta. "De repente, Almodóvar trouxe universos, cores, dores, razões e situações que não tinham visibilidade. E é por isso que o mundo dele conquistou tanta proeminência", reflete Leonardo.

Mudança de idioma

O último lançamento de Pedro Almodóvar nos cinemas, antes de Natal amargo, foi o longa O quarto ao lado (2024) , com as atrizes Tilda Swinton e Julianne Moore. A diferença desse filme para todos os outros do diretor espanhol é a língua: foi seu primeiro filme em inglês. Alguns críticos e fãs de Almodóvar não curtiram muito a proposta, afirmando que o cinema do espanhol é feito para a sua língua materna, e não funciona de forma americanizada. Outros já acreditam que a linguagem de Almodóvar é universal.

Na trama, duas amigas, as jornalistas Ingrid (Julianne Moore) e Martha (Tilda Swinton), se reencontram após anos sem contato. Martha acaba descobrindo uma doença terminal e as duas se conectam novamente, entre a vida, a morte e um grande dilema moral. O filme conquistou o Leão de Ouro em Veneza, em 2024.

Prêmios do diretor

O espanhol já brilhou em todas as premiações mais importantes do mundo. Nos prêmios Goya, o maior da Espanha, o diretor soma seis estatuetas: Melhor roteiro original e Melhor filme em 1989, por Mulheres à beira de um ataque de nervos (longa que iniciou a projeção internacional), Melhor filme e Melhor diretor por Tudo sobre minha mãe em 1999 e Melhor diretor e Melhor filme por Volver, em 2007.

Já no Oscar, conquistou Melhor roteiro original por Fale com ela, em 2002, e Melhor filme estrangeiro como Tudo sobre minha mãe (1999). No festival de Cannes, também foi premiado como Melhor diretor por Tudo sobre minha mãe, em 2000 e Melhor roteiro com Volver, em 2007. Dor e glória, longa de 2019, foi indicado à Palma de Ouro, sendo na época sua sexta indicação ao prêmio. (MR)

 


  • Patrick Criado e Barbara Lennie em Natal amargo: trama de autoficção
    Patrick Criado e Barbara Lennie em Natal amargo: trama de autoficção Foto: Warner/ Divulgação
  • Leonardo Sbaraglia e Samuel López em Natal Amargo
    Leonardo Sbaraglia e Samuel López em Natal Amargo Foto: Warner/ Divulgação
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postado em 28/05/2026 04:45
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