
Por Roberto Pedreira—O pessoal que frequenta o Bar do Bigode não entende bem como o reduto nunca foi visitado pela Vigilância Sanitária, o que fatalmente resultaria no seu fechamento. Não que a freguesia se importe muito com as condições de higiene do estabelecimento, mas é mesmo intrigante tamanha sorte. Alheias ao debate, as baratas circulam à vontade, quase como animais de estimação.
Bigode ouve calado todo tipo de especulação a respeito da transcendental questão e, como se afastasse mau olhado, passa no balcão o milenar pano que algum dia já foi branco e fuzila a assistência com o olhar. Todos sabem que não é um bom negócio irritar o Bigode.
Inocêncio, cujo nome já é uma ironia, trata logo de mudar de assunto. Para relaxar o ambiente e aproveitando um novato que chegou animado no boteco cheio de conversa, começa a dissertar com toda seriedade sobre a retidão de alguns notórios governantes do Rio de Janeiro. O rapaz ouve com credulidade e atenção, até que um salvador da pátria puxa a gargalha geral e ordena:
— Pausa para hidratação!
Vermelho de vergonha enquanto os outros riem dele e molham o gogó, o forasteiro abaixa a cabeça, paga discretamente a conta e sai de fininho.
Inocêncio costuma aprontar essas e outras com ingênuos ou folgados que querem logo se sentar na janelinha, mas mesmo veteranos podem cair nas suas lorotas e maldades. É um vício irritante do sujeito
Quando nasceu, o médico que puxava a criança para fora do ventre materno, não conteve a constatação:
— Mas que cara de sacana tem esse menino!
Cedo, no jardim de infância, começou a cumprir sua vocação. Explicou para os coleguinhas o que é a morte e revelou que todos nós morreremos um dia, inclusive mamãe, papai, vovó e vovô. Diversas crianças saíram dali aos prantos direto para a primeira terapia da vida. Os pais de Inocêncio tiveram que transferi-lo para outra escolinha, onde o infante, depois de algumas recomendações, passou a pegar mais leve.
Inocêncio cresceu aprimorando sua arte. Perdeu amigos, namoradas e empregos, mas seguiu em frente, fiel a seus instintos mais primitivos.
Conheci o Inocêncio no Bar do Bigode, ele já um senhor grisalho, com ar até respeitável. À primeira vista, nada indicava a víbora pronta para o bote no primeiro incauto que passasse por perto. Chegava sempre no final da tarde, abria um jornal e aguardava as circunstâncias lhe favorecerem.
Mais recentemente, nosso vilão andou numa fase de aplicar apelidos, cada um mais maldoso do que o outro. E — vocês sabem — a alcunha ferina sempre faz grande sucesso.
Pois, na última vez em que vi o Inocêncio, lá mesmo na minha querida e infecta bodega, a vítima de um apelido foi ele próprio.
Estava escondido atrás das páginas do seu jornal quando todos ouvimos um berro:
— Florzinho!
Era a patroa do Inocêncio.
O cara encolheu, olhou para os lados e se levantou apressado para cochichar com a madame, antes que viesse o próximo golpe. Confabularam nervosamente até que ele bateu em retirada, devidamente escoltado.
Faz um bom tempo que Florzinho não aparece no Bar do Bigode.
Quem conseguiu escutar um pouco da conversa do casal naquele fatídico dia garante que ela falava algo sobre o horário da sessão de terapia.

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte