
Por Ricardo Pedreira—A turma do Bar do Bigode – que fica na Asa Norte em endereço guardado a sete chaves por seus frequentadores – foi surpreendida com a revelação do Gaúcho:
— Estou fazendo yoga.
O espanto foi geral. Até as baratas que perambulam satisfeitas pela insalubre birosca pararam para ouvir a história.
Gaúcho tem esse apelido, mas nasceu em Maringá, no Paraná. O sujeito é atarracado, louríssimo e tem cara de pitbull. Foi um nordestino que lhe deu o apelido equivocado, argumentando que "da Bahia para baixo, para mim é tudo a mesma coisa". Gaúcho ainda tentou corrigir o erro e foi por isso, é claro, que o nome pegou.
A aparência viking do meu amigo de boteco não combina nem um pouco com a flor de pessoa que ele é. Simpático, fala baixo, ouve com atenção e evita polêmicas. Vende hortaliças e plantas medicinais na Ceasa, cultivadas pela família em Brazlândia, e de vez em quando traz boldo para os companheiros de bar. Só mesmo o boldo do Gaúcho para enfrentar a Flagelo do Norte, cachaça que Bigode vende num barril. "Boldo tarja preta", é o que se diz na simpática espelunca.
O pessoal sempre achou o Gaúcho um tanto zen, mas essa de fazer yoga arregalou os olhos da rapaziada. Ele lembrou que sua namorada é professora de yoga, "com estágio na Índia", e lhe convenceu a se iniciar na prática numa turma semanal que comanda no Parque Olhos D'Água, ali mesmo na Asa Norte.
— Você exercita o físico e a mente, e ainda reduz o estresse — pontificou com uma serenidade que pareceu vinda dos cumes do Himalaia.
— E desde quando você precisa ficar menos estressado? — provocou alguém. A turma gargalhou forte, o ambiente descontraiu, e algumas crianças que jogavam bola no gramado ao lado da calçada do botequim se aproximaram curiosas para escutar a conversa animada. Gaúcho foi estimulado a dar detalhes.
Explicou, "de forma muito simplificada", que a yoga consiste numa série de exercícios, chamados de Posturas.
— Tem a Postura da Montanha, do Cão Olhando para Baixo, da Cobra, da Ponte... Foi quando se ouviu um deboche grave vindo do fundo do boteco:
— Que babaquice!
Era um sujeito enorme e musculoso que nunca tinha sido visto por ali. Bebia solitário e usava uma camiseta que deixava bem claras suas preferências políticas. Rosnou mais uma vez:
— Tremenda babaquice!
O silêncio gelou o ambiente, todos se voltaram para o nosso herói e as crianças chegaram mais um pouquinho perto. As baratas recuaram para baixo do balcão. As aranhas cederam espaço. Gaúcho esperou um pouco, fez ar de deixa para lá e prosseguiu na explanação, como se o penetra não existisse. Começava a falar da Postura do Guerreiro quando seu descaso inflamou o valentão. O cara partiu para cima e nem houve tempo para acionar o VAR. Recebeu um único golpe do Gaúcho e caiu estatelado. A gurizada fez coro:
— Namastê! Namastê!
O pessoal teve alguma dificuldade para arrastar o armário desmaiado até a calçada. Ainda bem que o Samu chegou rápido. Mais tarde o Bigode foi informado que o infeliz estava bem de saúde, apesar de acabrunhado e lamentando dores da cabeça aos pés. Não presenciei o momentoso episódio, que relato a partir de informações mais ou menos fidedignas.
Mesmo quando as crianças saem do gramado e cercam o Gaúcho, pedindo para ele lembrar o "dia da porrada", meu amigo desconversa e vai tomar sua cervejinha. Embora já tenha explicado que o nocaute certeiro foi resultado do que aprendeu ainda adolescente no Krav Magá, vários marmanjos do Bar do Bigode passaram a atribuir a memorável performance "ao yôga". E quem der uma chegada no Parques Olhos D'Água verá um surpreendente número de senhores grisalhos, alguns carecas, quase todos barrigudos, suando e esticando nas Posturas da milenar prática hindu.

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte