Por Cláudio Ferreira—Todo mundo comemorando a "largada" das campanhas eleitorais, e o chato aqui preocupado com a saúde mental coletiva. A última experiência de confronto nas urnas deixou marcas irreparáveis em grupos familiares, de amigos, de colegas de trabalho e afins. Foi preciso muito jogo de cintura para recuperar amizades, relevar ofensas de parentes próximos e curar outras feridas - muitas, aliás, ainda estão abertas.
Por isso, proponho um pacto de civilidade até o final de possíveis segundos turnos. Uma espécie de "bandeira branca", um período em que cada um poderá se manifestar politicamente, mostrar pra quem está torcendo, expor pontos de vista, argumentar. Quando houver concordância, finais com sorrisos. Quando houver discordância, cumprimentos amigáveis ao final e promessas de uma nova rodada de debates, se der.
É só lembrar que, não faz muito tempo, sabíamos discordar civilizadamente. Tínhamos discussões exaltadas por causa de política, xingávamos o adversário, fazíamos campanha para quem a gente achava que valia a pena estar no poder. Aparecia até raiva, mas não ódio. A gente queria que o adversário não chegasse ao cargo, mas ninguém desejava a morte dele. As ameaças eram vistas como fruto do descontrole, e não como matéria-prima de campanha.
Os tempos mudaram. O país está polarizado e o clima de bem x mal (trocando as posições de acordo com a conveniência de cada um) contamina tudo, da política internacional ao futebol. Futebol, aliás, que também já foi mais civilizado na rivalidade, mas que anda produzindo mortes nos confrontos entre torcidas, racismo e outras mazelas.
Será melhor relaxar. Uma ferramenta pode ser o horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, que começa no dia 28. Tem, é claro, aqueles candidatos que aproveitam bem o tempo curto para mandar seu recado sério. Mas tem, também, muita tentativa de conquistar o eleitorado com humor: nomes engraçados, postura por demais descontraída e propostas controversas. Vale a pena conferir.
A proposta de "bandeira branca" precisa valer para todos os espaços. Não aceitar provocações na fila do supermercado ou da farmácia pode nos poupar aborrecimentos. Escolher em que grupos de aplicativos de mensagens vamos permanecer também pode trazer bons frutos. Procurar fontes confiáveis para saber de fatos e ler opiniões conscientes de que são opiniões é uma ótima providência.
O comportamento na vida presencial deve se repetir na vida virtual, por favor. Já está claro pra todo mundo que as redes sociais não são terra de ninguém — exageros e crimes praticados por lá têm consequências legais. Por isso, a civilidade pode ser estendida aos debates mediados pelas telas. Para o nosso bem.
Passadas as eleições, quem sabe não tomamos gosto por esta civilidade? Não encontramos novas fórmulas para viver numa sociedade plural? E não deixamos essa polaridade de bem X mal para as telenovelas? Até elas, diga-se de passagem, estão revendo seus conceitos de mocinhos e vilões absolutos, sem nuances e contradições.
