Crônica

Amanhã é outro dia

O comentário maldoso e machista, certamente, resultaria hoje no cancelamento do deputado nas redes sociais, ele próprio um bagulho bastante arruinado

cronica div mais 2310 -  (crédito: kleber sales)
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No final da década de 1970, quando a ditadura estava pelas tabelas, eu era um jovem repórter que fazia cobertura política em Brasília. Num dos salões do Congresso, entrevistava um velhíssimo deputado, daqueles que já exerciam mandato quando o Rio de Janeiro ainda era capital. Interrompeu as mesmices com que me enrolava, e a alguns colegas, quando viu passar perto do nosso grupo uma senhora matrona.

— Estão vendo aquela senhora? É taquígrafa da Câmara desde o Rio, lá no Palácio Tiradentes. Era um mulherão, de parar o trânsito. Hoje, está esse bagulho.

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E completou, com ares de filósofo:

— O tempo, meus filhos, esculpe ruínas.

O comentário maldoso e machista, certamente, resultaria hoje no cancelamento do deputado nas redes sociais, ele próprio um bagulho bastante arruinado. Mas na época não existiam nem redes sociais nem as preocupações politicamente corretas.

O episódio me veio à memória recentemente, ainda de madrugada, quando pesquisava com cuidado no espelho as ruínas do tempo em mim mesmo, no ato cotidiano de lavar o rosto depois de uma noite de bom sono. Os cabelos brancos, as rugas, as pálpebras caídas, as bolsas embaixo dos olhos, a papada coberta pela barba.

O mistério do tempo ficou a rondar meus pensamentos, com a lembrança de tanta coisa vivida, dos que já se foram, do que está por vir, do quanto resta. Lembrei e cantei baixinho os versos do Aldir: "Batidas na porta da frente/É o tempo..."

Recordei o menino que fui quando chegamos a Brasília sendo construída no meio do cerradão de terra vermelha, parecendo um deserto. Eu adorava, vivia descalço e sem camisa por aquele meu mundo. A cidade que nascia era mesmo um deserto, mas exalava esperança. Era uma época de otimismo, de uma certa ideia de Brasil que poderia dar certo.

Pensei como seria bom se aquele sonho dos anos 1960 tivesse continuado e lamentei num murmúrio a perspectiva atual do pesadelo que pode acontecer.

Súbito, surgiu no espelho a imagem do Tempo ao lado da minha. Fiquei paralisado, até que ele sussurrou no meu ouvido:

— Lembre que o jogo só termina quando acaba. Faça a sua parte.

Saí rápido e atônito do banheiro, e deixei o Tempo falando sozinho. Era um delírio?

Entrei na sala, cheguei à janela e vi amanhecer a cidade que hoje é um bosque que em nada lembra o deserto da minha infância. As primeiras chuvas deram vida aos gramados e cores às árvores. O flamboyant, que é meu companheiro de tantos anos, está em seu esplendor. Essa bela árvore vem marcando para mim, de forma digna e correta, o compasso do passado, presente e futuro.

Minha alma se desanuviou, perdi o medo e chamei o Tempo. Não era delírio e ele se aproximou vagaroso.

— Você esculpe ruínas, mas constrói maravilhas - eu disse, apontando para o cenário à nossa frente.

Ele balançou a cabeça afirmativamente, veio para o meu lado e pousou a mão no meu ombro, como um velho amigo. Ficamos calados diante da alvorada.

Terminado o espetáculo, o Tempo me disse para acreditar e sumiu no ar, cantarolando aquele samba do Chico:

"Amanhã vai ser outro dia/amanhã vai ser outro dia..."

 


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postado em 23/10/2026 06:00
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