Comida tem um lugar afetivo no nosso coração. Ao saborear o prato preferido, a sensação é inigualável. Ao experimentar uma nova versão da iguaria feita pelos avós ou pelos pais — do bolo de chocolate ao corte de carne predileto no churrasco - a emoção vem fácil, fácil. Mas mesmo fora de casa, no circuito de bares e restaurantes, as boas lembranças chegam. Meu pai, por exemplo, adorava um restaurante do início da Asa Sul que só serve carne e batata frita. Ainda me lembro da cara de prazer dele sentando-se a mesa e esperando aquela refeição. Ainda não tive coragem de voltar lá depois que ele morreu...
As boas lembranças também são aquelas que rendem boas risadas. Como a do restaurante chinês, também nas primeiras quadras da Asa Sul, que foi ponto de encontro da família durante muitos anos. O filé acebolado, cortado bem fininho, era um dos pratos sempre pedidos. Pois um dia, minha mãe, pernambucana também nos hábitos alimentares, surpreendeu a todos: quando chegou a travessa do filé e a do arroz colorido, ela tirou discretamente da bolsa um saquinho de farinha de mandioca para acompanhar o almoço. Família espantada, e ela, bem espontânea: "Qual é o problema?"
Cada família deve ter essas boas lembranças, que independem do luxo do ambiente, do preço do prato, do tempo que já se passou. Dividir as refeições sempre rendeu bons momentos com familiares e amigos e histórias não faltam, que misturam afetividade e pimenta, bom humor, confusões e até as consequências, boas ou ruins, de um almoço ou um jantar fora de casa. Lembrei agora do picadinho famoso de um lugar na Rua dos Restaurantes. Não do picadinho em si - e sua farofa maravilhosa acompanhando — mas do que ele me proporcionou. Um projeto desse Correio Braziliense trazia escritores e artistas para a cidade, por alguns dias, para que eles escrevessem sobre nosso quadradinho no caderno especial do aniversário de Brasília. Sabem quem eu levei, por exemplo, para provar o picadinho famoso?
O quadrinista Mauricio de Sousa e o jornalista Zuenir Ventura. Toda vez que volto ao restaurante, me recordo desses convidados ilustres que a profissão de jornalista me proporcionou conhecer e dividir a mesa. Férias de juventude em Recife? Lembro do circuito de feirinhas de bairro, um lugar a cada noite, atrás de um bom sarapatel, sem medo de passar mal no dia seguinte. Ou o bode feito pela prima em Caruaru, que rendia almoços intermináveis. A canjica da tia na época junina - aqui seria chamado de curau, mas lá é canjica, mais durinha, pra cortar com a faca e colocar no prato. E as mangas rosas tiradas do pé, diariamente, sobremesa mais do que bem-vinda.
É só parar um pouco para que as boas lembranças apareçam. O primeiro alfajor provado em Buenos Aires. A primeira maniçoba provada em Belém, na casa de uma família tão gentil que me "obrigou" a trazer pra Brasília uma vasilha de plástico com o que sobrou. A comida que vinha de Recife no avião com a gente, de mantas de carne de sol a jambo-do-Pará e fruta-pão. "Sua mãe gosta muito", justificavam os tios, antes de encher as sacolas. E aquele restaurante no exterior, num país onde você não entendia a língua, onde a comida foi escolhida contando com a sorte, com resultados variáveis?
E aquela passada pela feira livre, onde, de surpresa, você encontra o doce preferido ou um prato salgado que não aparece pra você há muito tempo? Bares, restaurantes, feiras. Mesmo com os cardápios digitais e com nossa ansiedade de saber antes qual é a comida, ainda há lugar para as surpresas. Uma sobremesa lembra um parente que já se foi, uma guarnição nos remete a outro tempo de vida, aquele prato principal você já dividiu várias vezes com o amigo que agora mora longe. Emoção e refeição juntas. Afinal, o estômago nem está tão longe do coração.
