As famílias brasileiras ficaram mais endividadas no ano passado, de acordo com dados publicados, ontem, pelo Banco Central (BC). A pesquisa Estatísticas monetárias e de crédito mostra que o endividamento das famílias chegou a 49,8% no fim de 2025, o que representa um aumento de 1,5 ponto percentual (p.p.)na comparação com o ano anterior,e de 0,5 p.p. ante novembro. O percentual é o maior já registrado desde o início do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e está próximo do recorde histórico de julho de 2022, quando chegou a 49,9%.
- Crédito do Cartão Material Escolar será depositado a partir de 2 de fevereiro
- Conta de energia fica mais barata para 66 mil famílias no DF
Esse percentual significa que, na média, quase metade de todos os recursos que as famílias recebem durante o ano corresponde às dívidas,o que inclui empréstimos pessoais, crédito consignado, cartão de crédito e financiamentos. Esse nível chegou a ter um período de queda ainda no início do atual governo. Em dezembro de 2023, ficou em 47,7%.A queda se deveu, principalmente,ao lançamento do programa Desenrola, que tinha o objetivo de facilitar a renegociação das dívidas com abatimento dos juros acumulados.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Apesar do sucesso em um primeiro momento, os efeitos do programa logo começaram a ser dissipados com o aumento da taxa básica de juros, principalmente, a partir de 2024. Desde o último mês de junho, a Selic permanece no patamar de 15% ao ano — o maior desde 2006. Nos 12 meses, o comprometimento de renda, que representa o percentual da receita mensal da família destinado ao pagamento de dívidas e despesas fixas, como aluguel, condomínio e empréstimos,avançou 2,2 p.p., chegando à máxima histórica de 29,3%.
A pesquisa também mostra que,no crédito livre às famílias — quando o banco tem autonomia para emprestar dinheiro e definir as taxas de juros cobradas aos clientes —, a taxa média anual chegou a 60,1%, o que representa um aumento de 7 p.p. na comparação com o fim do ano anterior. Entre os destaques para essa expansão estão o crédito pessoal não consignado, o cartão de crédito parcelado e a maior participação da carteira de cartão de crédito rotativo. A inadimplência no crédito livre às famílias ficou em 6,9%, com alta de 1,7 p.p. nos 12 meses de 2025.
Crédito rotativo
Na avaliação do chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha,o pagamento do 13º salário e as festas de fim de ano, fizeram com que o saldo do cartão de crédito crescesse 2,7% no mês, principalmente, em função das operações com cartão à vista, que cresceram 3,6% no mesmo período. “Aí,os saldos do cartão rotativo se reduzem no mês de dezembro. É claro que uma parte desse recurso extra de final de ano também foi usado para pagar as dívidas do cartão”, comentou Rocha, na apresentação do relatório.
Sobre o cartão rotativo, o representante do BC disse que a modalidade permanece com taxas de juros proibitivas, “elevadíssimas”, e expõe as fragilidades no uso dessa alternativa de financiamento. “(O crédito rotativo) é uma modalidade emergencial, sem nenhuma garantia. Todos os clientes devem fugir dela o máximo possível e tentar fazer o seu planejamento financeiro, além de evitar excessos de compras no cartão. E,outra vez, buscar meios para tentar pagar essa fatura do cartão, para que ela não gere crédito rotativo com essas taxas de juros elevadíssimas”, aconselhou.
Em 2025, o Indicador de Custo do Crédito (ICC), que mede o custo médio de toda a carteira ativa de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN), chegou a 23,4%ao ano, com um aumento de 1,9 p.p. no ano e uma redução de 0,2 p.p. em dezembro. O percentual de inadimplência do crédito total, que considera os atrasos acima de 90 dias, atingiu 4,1% da carteira no último mês do ano — um aumento de 1,1 p.p. em relação ao final de 2024.
Ao considerar somente as empresas, o percentual de inadimplência ficou em 2,5%, após alta de 0,5 p.p. no ano. Em relação ao crédito às famílias, a inadimplência subiu 1,5 p.p. no ano e atingiu 5%. Somente no mês de dezembro, esse percentual cresceu 0,1 p.p. na carteira de crédito total e de pessoas físicas e manteve-se estável no segmento de crédito às pessoas jurídicas. No segmento de crédito com recursos livres, a inadimplência registrou alta de 1,3 p.p. em 2025 e chegou a 5,4%. Já no crédito livre às empresas, a inadimplência cresceu 0,7 p.p. no ano e atingiu 3,2% da carteira.
