
Cinco anos após entrar em vigor no Brasil, o Open Finance — sistema que permite o compartilhamento de dados financeiros entre instituições mediante autorização do cliente — já acumula números robustos e coloca o país entre os líderes globais em finanças abertas. No entanto, apesar do avanço tecnológico e do potencial para reduzir custos de crédito e melhorar a gestão financeira, a confiança do usuário ainda aparece como principal barreira para uma adoção mais ampla.
Um estudo da Lina Open X, realizado pela plataforma de consumer insights MindMiners com mil brasileiros em dezembro de 2025, mostra que 76,8% da população afirmam conhecer o Open Finance, mas apenas 37,1% autorizaram o compartilhamento de dados. Ainda assim, o interesse existe: 75,2% gostariam de reunir todas as suas contas em um único aplicativo.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
O contraste ajuda a explicar por que o sistema ainda opera abaixo de sua capacidade. Segundo o dashboard do Open Finance Brasil, havia cerca de 143 milhões de consentimentos ativos em novembro de 2025. Para Murilo Rabusky, diretor de Negócios da Lina Open X, o crescimento é consistente, mas ainda deixa de fora uma parcela relevante da população.
“Estamos diante de uma tecnologia que funciona, é segura, está amplamente disponível e é frequentemente percebida como útil por quem já utilizou, mas que ainda depende de uma adoção mais estratégica por parte das instituições do mercado, que podem utilizar os dados compartilhados em benefício dos seus clientes, aumentando a percepção de valor e, consequentemente, a adesão”, avalia.
Controle financeiro
O levantamento revela um descompasso na relação dos brasileiros com ferramentas digitais. Embora 71,8% reconheçam que a tecnologia ajuda a melhorar a relação com o dinheiro, apenas 18,9% utilizam aplicativos de controle financeiro regularmente — uma diferença de mais de 50 pontos percentuais entre percepção e prática.
Na rotina, métodos tradicionais ainda predominam: 31,6% registram despesas em cadernos ou planilhas, enquanto 16,1% não fazem qualquer tipo de controle. “Esse gap mostra que o problema deixou de ser tecnológico. Hoje, a barreira é comportamental, ligada à conveniência e à forma como as pessoas entendem e utilizam as ferramentas de finanças pessoais”, afirma Rabusky.
Os aplicativos bancários já se consolidaram como principal canal de relacionamento para 81% dos brasileiros. Ainda assim, o uso das funcionalidades de educação financeira é limitado: apenas 23,1% seguem as orientações personalizadas recebidas, enquanto 25,7% raramente as colocam em prática e 13,1% simplesmente ignoram o conteúdo.
O reflexo aparece na capacidade de planejamento financeiro. Apenas 26% conseguem poupar todos os meses e somente 12,8% se dizem totalmente preparados para lidar com imprevistos, como perda de renda ou despesas emergenciais.
“Os bancos e as fintechs avançaram muito em digitalização, mas grande parte desse esforço ainda não se traduz em mudança concreta de comportamento quando o assunto é educação financeira, controle de gastos e formação de poupança”, diz o especialista. “Existe uma grande oportunidade para transformar os aplicativos bancários em ferramentas efetivas de educação e gestão financeira integrada à rotina das pessoas.”

Mundo
Mundo
Economia