INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Anúncios revelam pressão por lucratividade sobre empresas de IA

OpenAI anunciou testes para colocar publicidade em conversas do ChatGPT. Outras companhias do setor também discutem o tema. Anthropic, por exemplo, recusa a possibilidade

CEO da OpenAI, Sam Altman, era resistente a pôr publicidade na IA -  (crédito:  Jason Redmond / AFP)
CEO da OpenAI, Sam Altman, era resistente a pôr publicidade na IA - (crédito: Jason Redmond / AFP)

A OpenAI informou, no início do ano, que pretende iniciar testes com anúncios na versão gratuita do ChatGPT, assim como uma mudança em seu esquema de planos pagos. A discussão atinge outras empresas do setor, e representa, segundo especialistas ouvidos pelo Correio, a pressão para que a IA se torne lucrativa.

Segundo a OpenAI, usuários do movo plano "Go", de US$ 8 mensais (cerca de R$ 42) continuarão visualizando anúncios, assim como a versão gratuita. Já assinantes dos planos pagos superiores e clientes corporativos não verão publicidade.

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O diretor-executivo da companhia, Sam Altman, havia manifestado anteriormente cautela na adoção de anúncios. A mudança ocorre enquanto a empresa busca ampliar a receita gerada por cerca de 800 milhões de usuários mensais.

A companhia também mantém um plano de investimento estimado em US$ 1,4 trilhão em infraestrutura ao longo dos próximos oito anos. Em novembro, Altman afirmou que a expectativa era encerrar 2025 com receita anual próxima de US$ 20 bilhões.

Para o economista Davi Lelis, sócio da Valor Investimentos, o crescimento do setor levanta questionamentos sobre a sustentabilidade financeira das empresas. Ele vê semelhanças com períodos anteriores de forte expansão tecnológica.

"Existe um paralelo com a bolha das 'pontocom', mas há uma diferença estrutural importante: dessa, vez existe receita real. O problema é que ela não necessariamente está sendo convertida em lucro, e o mercado ainda está precificando crescimento futuro com múltiplos que exigem uma escala de monetização que nenhuma dessas empresas demonstrou viabilidade até agora", afirmou.

Sobre as mudanças no ChatGPT, Lelis avalia que a medida pode atender a diferentes objetivos ao mesmo tempo. "Diversificar fontes de receita é racional, mas o momento e a necessidade de fazer isso agora indicam uma pressão de caixa sobre o ChatGPT e a OpenAI", disse.

A empresa afirmou ainda que não venderá dados de usuários ou conteúdos das conversas para anunciantes, e os usuários poderão desativar a personalização de anúncios baseada em interações realizadas no sistema. 

A companhia também informou que não pretende exibir publicidade em conversas relacionadas a temas classificados como regulados, como saúde, saúde mental ou política.

O uso de anúncios também mobiliza concorrentes. A Anthropic, responsável pelo chatbot Claude, divulgou uma série de campanhas publicitárias negando o uso de anúncios e links patrocionados nas respostas dadas pela ferramenta.

Proteção de dados

Para o advogado especialista em direito digital e presidente da Comissão Nacional de Cibercrimes da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (Abracrim), Luiz Augusto D'Urso, a inclusão de publicidade não apresenta impedimentos jurídicos, desde que respeite a legislação de proteção de dados.

"O usuário precisa ter pleno conhecimento de que seus dados serão utilizados para marketing digital e precisa autorizar esse tipo de tratamento", disse. D'Urso acrescenta que eventuais conteúdos patrocinados também devem ser identificados de forma clara.

Para o professor Gilmar Lucena, coordenador do curso de Ciências da Computação do Uniceplac, a discussão também envolve aspectos técnicos do funcionamento da IA. Modelos avançados exigem infraestrutura massiva de GPUs, consumo elevado de energia elétrica e equipes de engenharia especializada. De acordo com o professor, esse tipo de funcionamento torna difícil manter um serviço gratuito disponível para milhões de usuários.

"A introdução de anúncios seria uma forma de sustentar financeiramente o serviço, algo semelhante ao que já acontece com plataformas como Google e YouTube", afirmou.

O professor observa, porém, que a interação com chatbots possui características diferentes das ferramentas de busca tradicionais. Um chatbot estabelece conversas prolongadas e, muitas vezes, pessoais. Usuários relatam dúvidas profissionais, problemas financeiros ou questões de saúde mental.

Segundo ele, a presença de publicidade pode levantar questionamentos sobre influência nas decisões do usuário. "A crítica é que o chatbot deixa de ser apenas uma ferramenta informacional e passa a atuar como um agente de persuasão comercial baseado em dados sensíveis", comentou.

*Estagiário sob a supervisão de Victor Correia

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postado em 16/03/2026 03:55
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