
Após três anos e três meses à frente do principal ministério da Esplanada, Fernando Haddad, oficializou, ontem, a saída da pasta em dois eventos em São Paulo, ambos ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva . E, de acordo com analistas ouvidos pelo Correio, a gestão do petista teve altos e baixos, principalmente, a falta de resolução de problemas recorrentes que continuam no radar e pioram o quadro fiscal. Ao mesmo tempo, elogiaram a habilidade do ex-ministro nas negociações com o Congresso Nacional para a aprovação da reforma mais demorada desde a democratização: a tributária.
Ao confirmar a nomeação do secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, como substituto de Haddad, Lula fez vários elogios ao agora pré-candidato ao governo de São Paulo e afirmou que ele será reconhecido como o "ministro mais exitoso" da história. Ele destacou como principal legado a aprovação da reforma tributária, que estava há mais de 40 anos tramitando no Congresso, feito que foi citado como um dos destaques de sua gestão pelos analistas.
Haddad, por sua vez, destacou números positivos da positivos na economia, como o Produto Interno Bruto (PIB) em todos os anos e o desemprego no menor nível histórico, de 5,4%, mas especialistas apontam como um dos principais problemas o aumento da dívida pública bruta, que está próxima de 80% do PIB – patamar insustentável para país emergente com juros básicos de 15%, pois o estoque dobra em menos de cinco anos.
O ministro, em vários discursos, atribuiu ao governo anterior, que deu calote nos precatórios (dívidas judiciais que não cabem recursos) para fechar as contas no azul em 2022, como forma de justificar o forte aumento de gastos em 2023, que contribuiu fortemente para o desequilíbrio macroeconômico, especialmente na política fiscal, que resultou em um aumento de R$ 230 bilhões em gastos. Especialistas lembraram que a dívida pública segue crescendo rumo ao mesmo patamar registrado na pandemia da covid-19, em 2020, de 86,9% do PIB, mesmo sem uma nova pandemia para justificar o aumento de despesa não emergencial e de gastos permanentes, como o novo Bolsa Família de R$ 170 bilhões, sem receita equivalente, como prevê a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Além disso, criticam o fato de que o novo arcabouço fiscal só é cumprido com descontos de gastos na conta, o que não evita o impacto no endividamento público.
Para o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, a gestão Haddad teve erros e acertos, avanços e recuos, como acontece em qualquer outra.
“Mas, no conjunto da obra, ele foi um bom piloto da economia e vejo o saldo razoavelmente positivo, fruto de um trabalho intenso e dedicado. A escolha de uma equipe técnica qualificada fez diferença ao longo do caminho, ajudando a dar racionalidade às decisões, a conter pressões políticas legítimas e a manter um diálogo institucional com o Congresso e o Judiciário”, destacou Sidney. Ele reconheceu que o papel de todo ministro da Fazenda é ingrato — e muitas vezes solitário — de zelar pelo equilíbrio das contas públicas. “Nesse cenário, Haddad mostrou habilidade, jogo de cintura e técnica, sabendo dizer “sim” com jeito de “não”, e o contrário também. Aliás, ele atuou como um bom goleiro, não tomou gols de mão nem frango, e as partidas foram disputadas contra atacantes craques e artilheiros”, disse o presidente da Febraban, acrescentando que, muitas vezes, Haddad foi um bom interlocutor com o setor privado. Na avaliação dele, o principal ponto de atenção segue sendo o crescimento da dívida pública e o nível elevado das taxas de juros, em um contexto ainda de política fiscal expansionista. Ainda assim, a gestão Haddad deixou preparadas as bases para um ajuste fiscal mais robusto, pois será inevitável a partir de 2027, qualquer que seja o resultado das urnas", complementou.
Ao ver do economista e ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman, contemporâneo de Haddad na pós-graduação de economia na Universidade de São Paulo (USP), o ministro mostrou que é um fiel seguidor de Lula e, por conta disso, evitou contrariar o chefe do Executivo no ímpeto de criar despesas que aumentaram a dívida pública de forma expressiva. “(Haddad) Entregou uma dívida maior do que encontrou. Herdou um pequeno superavit primário estrutural e o tornou um deficit, elevando as despesas obrigatórias, o que torna sua correção mais difícil. Ao contrário de Antonio Palocci (ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula), jamais serviu como voz da razão no governo; pelo contrário, fez tudo que Lula pediu e, como Guido Mantega e o próprio Paulo Guedes (ministro da Economia de Jair Bolsonaro), se engajou mais em política do que seria sábio para o ministro da Fazenda”, comparou Schwartsman. Em 2022, a dívida pública bruta encerrou em 76,5% do PIB e, até janeiro deste ano, atingiu 78,7% do PIB, o equivalente a R$ 10,1 trilhões.
Ao comentar sobre a aprovação da reforma tributária, Schwartzman afirmou que o mérito maior é do ex-secretário extraordinário da Fazenda Bernard Appy, que desenhou a proposta aprovada no Congresso. Além disso, lembrou que houve vários aumentos de tributos ao longo do governo para cobrir os rombos fiscais. “No que se refere aos demais tributos, Haddad fez por merecer o apelido de 'Taxadd'. Deixou a economia em desaceleração e as contas públicas estouradas”, lamentou.
Na avaliação do ex-diretor do BC, a atuação do Banco Central, que vinha sendo conduzida pelo ex-presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto, e que foi mantida pelo presidente atual, Gabriel Galípolo, a inflação teria se acelerado também. Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, também reconheceu a importância da independência do BC e considerou que uma das principais características da gestão de Haddad foi o forte impulso fiscal de 2023, que gerou uma série de desequilíbrios macroeconômicos. “Devido à autonomia do Banco Central, ele impediu que houvesse um desequilíbrio maior na economia, como ocorreu entre 2006 e 2017, quando o BC não era independente”, disse.
O economista e professor da USP Simão Silber, considerou que Haddad foi bastante flexível e teve apoio de uma equipe de técnicos competentes, mas deixou muita coisa pelo caminho, como o engessamento dos gastos obrigatórios. “As despesas obrigatórias continuam comendo o Orçamento e a piora dos cenários externo e interno, devido às eleições e aos escândalos, tendem a dificultar o trabalho do próximo ministro”, afirmou.
Antonio Corrêa de Lacerda, conselheiro do Conselho Federal de Economia (Cofecon), elogiou o trabalho de Haddad e apontou a aprovação da reforma tributária e o novo arcabouço fiscal como um dos principais destaques, porque “embora mantivesse restrição à expansão dos gastos públicos, deu maior flexibilidade para os investimentos do governo”.
O jogo de cintura de Haddad na relação com o Congresso foi elogiado também pelos especialistas. O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, recordou que Haddad nunca foi uma unanimidade desde a sua escolha para o cargo após a vitória de Lula nas urnas. “Muitos setores do mercado, no início, o receberam com muito mais pessimismo do que a realidade destes três anos e três meses demonstrou. Politicamente, conseguiu estabelecer por um bom tempo uma relação construtiva com o Congresso a ponto de terem aprovado uma importante reforma tributária empacada há décadas. Não foi algo de pouca importância, ainda que o Congresso não tenha conseguido avançar (como poderia) na pauta de regulamentação da reforma, sendo em vários momentos provocado pelo ministro no sentido de fazê-lo”, pontuou.
De acordo com o cientista político Christopher Garman, diretor do Eurasia Group, Haddad fez um bom trabalho, diante das restrições políticas que ele tinha. “Ele tem uma relação muito próxima com o presidente Lula, e o arcabouço fiscal foi importante sinal depois da PEC da Transição, que se mostrou insuficiente, claramente, mas foi uma vitória política importante”, destacou. Ele reconheceu também que o lado positivo foi a aprovação da reforma tributária, mas o que pesa contra, na avaliação dele, é o controle insuficiente do gasto”. “O resultado de tudo foram juros reais altos e insegurança tributária para o setor produtivo Mas dado o perfil desse governo, e a baixa tolerância por uma recessão, acho que fez o que pode”, afirmou.

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