Com os Estados Unidos e Israel travando uma guerra contra o Irã desde sábado, o mundo pode passar por uma nova crise do petróleo. O tipo Brent, referência internacional, abriu as negociações, ontem, a US$ 80,58 — alta de mais de 13%. A preocupação observada por analistas e agentes de mercado decorre em razão do fechamento do Estreito de Ormuz — importante hub de exportações do produto a nível global — pela Guarda Revolucionária do Irã e da escalada militar do conflito.
Cerca de um quinto de todo o petróleo extraído no mundo (20 milhões de barris por dia) passa por um pedaço de oceano que chega a ter somente 33km de distância de uma margem a outra. Além de ser passagem do chamado "ouro negro", o Estreito de Ormuz é importante para o comércio global pelo transporte de gás e outros produtos fabricados no Oriente Médio.
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A Guarda Revolucionária Iraniana decidiu fechar novamente o estreito por causa dos ataques, a exemplo do que ocorreu em junho de 2025, durante a Guerra dos Doze Dias, com a Operação Martelo da Meia-Noite, que atingiu três instalações nucleares no país. O Irã está ainda mais fragilizado, tanto politicamente, com a perda do aiatolá Ali Khamenei, que governou a nação por mais de três décadas, quanto militarmente, com boa parte do arsenal de defesa comprometido pelos últimos conflitos.
Há dúvidas em relação à capacidade do país localizado no Oriente Médio de manter um controle mais forte às embarcações que trafegam por Ormuz. O fechamento da passagem gera uma preocupação, inclusive, a países que mantêm relações mais próximas ao regime teocrático, como a China, que importa quase cinco milhões de barris por dia de petróleo que atravessa o estreito.
A situação também deve gerar impactos mais graves no preço do petróleo. A curto prazo, há uma expectativa nos mercados futuros de um aumento entre 10% e 20% no valor atual do barril tipo Brent. Caso o conflito se prolongue por mais tempo, o preço poderia ultrapassar o patamar de US$ 100 — o que não ocorre desde agosto de 2022.
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Ontem, o Ministério dos Assuntos Estrangeiros da Rússia alertou para as consequências do fechamento do Estreito de Ormuz para o mercado petrolífero mundial em meio aos ataques. A passagem é a única saída do Golfo Pérsico para o mar aberto — que passa uma parte considerável do petróleo exportado pelos países árabes do Golfo.
"Isso tudo pode levar ao bloqueio de exportações de hidrocarbonetos na região e criar um desequilíbrio significativo nos mercados globais de petróleo e gás", diz a chancelaria russa em nota sobre a situação no Irã.
As primeiras Bolsas a abrirem o pregão caíram. O índice Nikkei 225, no Japão, caía 1,38% por volta das 22h, aos 58.038 pontos. Na Austrália, a Bolsa de Sydney (S&P/ASX 200) recuou 0,52%, aos 9.150 pontos. No Brasil, a expectativa é que a Bolsa também recue. A Bolsa da Coreia do Sul não abre por causa de um feriado nacional.
Impacto
Com a decisão da Guarda Revolucionária, grandes companhias de petróleo e outras empresas de navegação passaram a suspender embarques e operações no entorno de Ormuz. Apesar da restrição, há navios que trafegam pela região, apesar de ser em um volume bem menor do que o normal.
O especialista em negócios internacionais e geopolítica do petróleo Daniel Toledo acredita que, no curto prazo, a tendência natural é de alta tanto do West Texas Intermediate (WTI), referência para os Estados Unidos, assim como o Brent, que abriu ontem com aumento de 9%, negociado a US$ 73,09.
Ele ressalta que, mesmo sem interrupção concreta na produção, o simples risco de desabastecimento eleva os contratos futuros. Toledo aponta que a demanda global por petróleo responde muito mais a fatores estruturais, como crescimento econômico, atividade industrial e consumo global. "Um choque pontual de preço não reduz automaticamente o consumo. O efeito inicial é predominantemente financeiro e especulativo, não físico", avalia.
"Tecnicamente, estamos diante de um choque de risco. Para virar um choque estrutural de oferta e sustentar preços elevados por semanas ou meses, seria necessário que o conflito afete efetivamente a produção, o transporte ou a capacidade exportadora da região. Sem isso, a tendência histórica é de volatilidade forte no curto prazo, seguida de acomodação", observa.
Produção maior
Ontem, os oito integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep ) concordaram em elevar a produção da commodity a partir do próximo mês de abril. O grupo é formado por Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Cazaquistão, Argélia e Omã. De acordo com a Opep, serão 206 mil barris produzidos a mais por dia a partir de 1º de março, que se somam aos 1,65 milhões extraídos.
Mesmo com o conflito deflagrado no Oriente Médio, a Opep avalia que há uma "perspectiva econômica global estável" no mercado de petróleo. Diante disso, a organização afirmou que os países continuarão a monitorar e avaliar de perto as condições do mercado. Eles também reiteraram a importância de adotar uma abordagem cautelosa e manter total flexibilidade para "aumentar, pausar ou reverter a eliminação gradual dos ajustes voluntários de produção". A nota publicada pela Opep ainda informa que o grupo irá se reunir em 5 de abril para discutir novas estratégias.
O economista e gestor de riscos Rodrigo Provazzi enxerga um caráter antiinflacionário no aumento da produção de petróleo determinado pelos países-membros da Opep. Mas considera que uma maior extração da commodity não resolveria o problema de imediato em caso de uma pressão maior nos preços, pois o conflito não gera um risco de oferta na produção, mas, sim, no transporte.
"O que vai determinar esse nível de atenção ao petróleo é a duração do conflito. Então, eu não acho que o conflito vai se prolongar por muito tempo, até por uma incapacidade do Irã e de seus aliados", destaca o economista.
O professor de economia internacional na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) Masimo Della Justina acredita que a perturbação nos preços é natural, mas deve depender ainda de quanto tempo vai durar.
"Acredito que o Irã está em uma posição militar frágil na medida em que sua estrutura militar de defesa vai sendo destruída cirurgicamente de forma muito profissional e porque no ataque que ocorreu da última vez (em junho de 2025), muito dessa estrutura foi destruída", diz.
Na Ásia
Os impactos maiores em caso de um fechamento mais prolongado do estreito poderão recair sobre os mercados asiáticos, pois 84% do petróleo bruto e condensado que passou por Ormuz em 2024 teve como destino o continente,e 83% do gás natural também foi conduzido pelos países da Ásia. Somente China, Índia, Japão e Coreia do Sul responderam por 69% do fluxo total de petróleo bruto e condensado.
Masimo Della Justina lembra que a China tem uma demanda de quase 5 milhões de barris por dia e, se somada toda a demanda da Ásia, esse número chega a 13 milhões de barris, o que equivale a mais de quatro vezes a produção diária da Petrobras.
"De imediato, o que será mais impactado pelo ataque norte-americano é o suprimento do petróleo e do gás natural. O próprio preço de quantidade desses dois componentes energéticos são a quantia exportada e fluxo o impacto é imediato. A especulação imediata que acontece pode elevar de 10% a 20%", analisa.
Outro ponto a ser mencionado é a transição de governo no país, que ainda é incerta. Há uma expectativa de que o filho do último xá do Irã, Reza Pahlavi, assuma o comando do Irã com a queda do regime teocrático. No entanto, essa possibilidade pode estar mais distante do que parece. Ontem, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que conversou com o novo aiatolá Alireza Arafi, e os dois se manifestaram interessados em uma negociação.
