
O uso de deepfakes em fraudes digitais tem ampliado perdas financeiras em escala global e elevado a frequência de ataques, com impacto direto sobre empresas e consumidores. Dados compilados pela Surfshark por meio do AI Incident Database, Resemble.AI e OCDE indicam que os prejuízos acumulados com esse tipo de golpe chegaram a US$ 2,19 bilhões, sendo uma parcela impressionante de US$ 1,65 bilhão registrada apenas no ano de 2025.
Nos Estados Unidos, as perdas somaram US$ 712 milhões. Desse total americano, 43% ocorreram no setor corporativo e 17% (ou US$ 124 milhões) vieram de golpes de personificação de familiares, uma modalidade em que os EUA concentram 99,9% de todos os prejuízos globais. Além do alto volume financeiro na América do Norte, o impacto se estende com força por outros países. A Malásia aparece como o segundo maior alvo, registrando US$ 502 milhões em perdas, quase totalmente atreladas a falsos investimentos (99,7%). Já o ano de 2026, demonstra que a frequência e a eficácia das ameaças não estão diminuindo, com as perdas globais contabilizando US$ 96 milhões logo nos seus primeiros meses.
No ambiente corporativo, o custo médio por ataque foi estimado em US$ 500 mil em 2024, podendo alcançar US$ 680 mil em grandes empresas, segundo dados do Eftsure/Business. Casos recentes ilustram a dimensão do problema, como o de um funcionário da Arup(Hong Kong) que transferiu US$ 25 milhões após participar de uma videoconferência manipulada com deepfake em fevereiro de 2024.
Projeções apontam que os danos associados ao uso de inteligência artificial generativa podem atingir US$ 40 bilhões até 2027, com crescimento anual médio de 32%
Ataques cibernéticos
No Brasil, o cenário acompanha a tendência global. Não há um levantamento específico sobre deepfake. Mas, considerando ataques cibernéticos em geral, o país ocupa a segunda posição no ranking mundial, com cerca de 700 milhões de tentativas por ano, o que equivale a 1.379 ataques por minuto, segundo a ADDP. Em 2025, fraudes envolvendo o sistema de pagamentos instantâneos Pix geraram prejuízo de R$ 4,9 bilhões, enquanto o volume geral de golpes digitais cresceu 35%.
Levantamento da Adyen indica que 42% dos brasileiros já sofreram perdas financeiras diretas, com prejuízo médio de R$ 2.288. No comércio eletrônico, foram registradas 2,8 milhões de tentativas de fraude em 2025, com impacto estimado em R$ 3 bilhões. Considerando a subnotificação, as perdas totais com fraudes digitais no país podem ter variado entre R$ 10 bilhões e R$ 112 bilhões em 2024.
Diante desse cenário, empresas têm revisado estratégias de segurança. Projeções da Experian indicam que, até 2026, cerca de 30% das organizações deixarão de considerar soluções isoladas de verificação de identidade como confiáveis. Além disso, 72% dos líderes empresariais apontam as fraudes com inteligência artificial como um dos principais desafios operacionais.
O especialista em crimes cibernéticos Rodrigo Fragola explica que os deepfakes, conteúdos em vídeo, imagem ou áudio manipulados por inteligência artificial para simular o realismo de uma pessoa, trazem riscos que vão muito além dos golpes corporativos, englobando também desinformação, manipulação política, chantagem e violência digital.
Fragola aponta que um dos principais obstáculos está na identificação dos responsáveis pela criação e disseminação desse tipo de conteúdo. Segundo ele, o uso de ferramentas como redes privadas virtuais (VPNs), contas falsas, aplicativos criptografados e a rápida replicação de conteúdos dificultam o rastreamento da origem e a atribuição de autoria.
No campo jurídico, o especialista avalia que a legislação brasileira atual permite enquadrar parte dos danos provocados por deepfakes em crimes já previstos, como estelionato, ameaça e crimes contra a honra. No entanto, ele destaca limitações na prevenção. "A lei atua melhor depois que o dano ocorre do que antes da viralização", diz. De acordo com Fragola, ainda há lacunas na tipificação específica de deepfakes não autorizados e na definição de responsabilidades das plataformas digitais diante de riscos iminentes.
Paralelamente ao avanço das fraudes, empresas têm ampliado o uso de ferramentas de detecção baseadas em inteligência artificial para tentar conter esse tipo de crime. Segundo Camilo Girardelli, membro do IEEE e arquiteto de software, essas tecnologias já operam em diferentes níveis de complexidade, desde verificações básicas até análises avançadas em ambientes críticos, como o sistema financeiro.
"A tecnologia está bem avançada. Temos desde análises mais superficiais, para validações simples de imagens e documentos, até análises extremamente profundas em sistemas bancários", afirma.
A adoção dessas soluções ocorre principalmente no ambiente corporativo, com foco em instituições financeiras e empresas que lidam com dados sensíveis. "A adoção é muito mais voltada para o mercado empresarial, especialmente fintechs e empresas do sistema financeiro, que preferem ter essas soluções internamente", explica. Segundo ele, o uso pode ser expandido para qualquer serviço digital que dependa de validação de identidade, incluindo redes sociais, plataformas educacionais e sistemas governamentais.
No setor financeiro, os prejuízos associados a deepfakes estão diretamente ligados à fraude de identidade. "O prejuízo ocorre quando um fraudador usa um documento, imagem ou reconhecimento facial falso para se passar por outra pessoa", diz.
Girardelli afirma que, em grande parte dos casos, o impacto financeiro recai sobre as instituições. "O cliente comprova que não realizou a transação, e a instituição financeira acaba absorvendo o prejuízo", afirma.
*Estagiários sob a supervisão de Edla Lula

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