Impostos

Aumenta para 32,4% o peso dos impostos sobre brasileiros

Alta foi puxada por Imposto de Renda e contribuições previdenciárias, enquanto estados registraram recuo relativo na arrecadação

A carga tributária brasileita atingiu 32,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, um recorde da série histórica, inciada em 2010, de acordo com o “Boletim de Estimativa da Carga Tributária do Governo Geral de 2025”, divulgado ontem pelo Tesouro Nacional. Os dados se referem ao total de impostos recolhidos pelo governo geral – que inclui União, estados e municípios –, que em 2024 correspondiam a 32,2% do PIB. 

Em valores brutos, o aumento anual da carga tributária brasileira em relação a 2024 foi de de 8,8% para R$ 4,2 trilhões – incremento de R$ 333 bilhões para os cofres da União em tributos ampliados, como o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) ao longo de 2025 e a reoneração gradual da folha de pagamentos, lembram os especialistas.  “Esse aumento da carga tributária em relação ao PIB chama a atenção, porque a taxa é a maior dos últimos 15 anos. E ainda há outro elemento como o aumento real de tributos na esfera estadual, que aumentou o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) para melhorar a posição no rateio da reforma tributária”, destacou o advogado tributarista Ilan Gorin, diretor da Gorin Advocacia, lamentando o fato de o governo evitar fazer uma reforma administrativa que reduza os gastos de forma mais expressiva.

O economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Leal de Barros, também criticou a falta de ajuste estrutural do governo. “Os dados mostram que a estratégia fiscal do Ministério da Fazenda, unilateral em ampliar carga tributária, funcionou e atendeu aos objetivos pretendidos. No entanto, o problema fiscal segue carecendo de solução estrutural, que deve focar no gasto”, destacou.

Valdo Virgo - ECO-Peso do estado

Apesar do aumento de 0,18 ponto na carga tributária, a taxa do Brasil é inferior à da média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o chamado clube dos ricos, de 34% do PIB, registrada em 2024, conforme o relatório do Tesouro. Mas, a qualidade dos serviços públicos ainda não é comparável ao padrão de países desenvolvidos, especialmente os europeus, destacou Jonathas Goulart, economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). “O nível de arrecadação do Brasil é compatível ao de países desenvolvidos, mas a sociedade não recebe serviços equivalentes ao que paga em impostos”, comparou. 

Goulart lembrou que a carga tributária aumentou em um cenário em que as contas públicas seguem no vermelho e a dívida pública bruta está perto de 80% do PIB. “O país não tem o que comemorar com esse aumento da carga tributária com um déficit orçamentário e a dívida pública em relação ao PIB também crescendo, porque continua com um problema fiscal grave a ser equalizador que é a necessidade de diminuir os gastos”, acrescentou. 

O economista Davi Lelis, sócio da Valor Investimentos, destacou que a carga tributária do Brasil é superior à média da América Latina e apresenta um nível de arrecadação elevado em relação ao padrão de economias emergentes. “Há concentração da tributação sobre o consumo, impacto sobre o ambiente de negócios e diferença entre arrecadação e retorno em serviços públicos”, lamentou. Para Lelis, a reforma tributária pode alterar a forma de cobrança, mas não necessariamente o nível de arrecadação. “A simplificação do sistema não implica redução da carga. A tendência é de reorganização dos tributos, enquanto o volume arrecadado segue em debate”, afirmou.  A mesma opinião é compartilhada por Goulart, da Firjan, que torce para que, pelo menos, a carga atual não aumente nos próximos anos quando a reforma tributária entrar em vigor com o novo Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual, que será um dos maiores do mundo, infelizmente.

Na avaliação da gerente de Assuntos Tributários da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) Rita Eliza Costa, o aumento moderado da carga tributária em 2025 foi deve ser interpretado com cautela, porque o dinamismo do mercado de trabalho formal, com aumento de 1,1% no número de pessoas ocupadas, também ajudou a aumentar a arrecadação, como a do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRFF). Contudo, ela reconheceu que “em um cenário de desaceleração econômica, a elevação do nível de arrecadação sugere que o governo tem priorizado o ajuste no lado das receitas em detrimento de iniciativas mais consistentes de racionalização do gasto público”.

Para o economista Davi Lelis, sócio da Valor Investimentos, o avanço da arrecadação federal reflete diferentes fatores. “O aumento veio principalmente do IRRF, ligado ao crescimento da renda do trabalho, das contribuições previdenciárias, com a reoneração da folha, e do IOF, associado a operações financeiras e de câmbio”, disse. 

Anderson Trautmann Cardoso, vice-presidente jurídico da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), destacou que a carga tributária tem um grande impacto no desenvolvimento econômico de um país e lembrou que ela só vai diminuir quando o governo conseguir fazer uma reforma administrativa que reduza o gasto público. “Deveríamos ter uma reforma administrativa que reduza o peso do Estado sobre os ombros da sociedade”, afirmou. 


*Estagiário sob a supervisão de Edla Lula 

 

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