
Mais de 24 milhões de brasileiros já enviaram a declaração do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) 2026 à Receita Federal, mas especialistas alertam que o avanço da tecnologia e da declaração pré-preenchida não elimina o risco de erros capazes de levar o contribuinte à malha fina.
Até esta quinta-feira (14/5), foram entregues 24.204.094 declarações, sendo 59,6% por meio do sistema pré-preenchido. O prazo de envio começou em 23 de março e termina em 29 de maio. A expectativa do Fisco é receber 44 milhões de documentos até o fim do período.
Segundo o especialista em direito tributário pela Fundação Getulio Vargas (FGV) Fabrício Tonegutti, apesar da praticidade do modelo pré-preenchido, o contribuinte não deve confiar integralmente nas informações carregadas automaticamente pelo sistema.
“Segundo a própria Receita, 60,5% das declarações entregues até 14 de abril foram pré-preenchidas. Isso ajuda muito. Mas aqui entra a complicação da história: pré-preenchida não é declaração automática. Ela reduz erro, mas não elimina erro. Porque os dados vêm de terceiros. Então, se a empresa, o banco, o médico ou a fonte pagadora informaram algo errado, ou se o contribuinte não confere, o problema continua existindo”, afirma o diretor da Mix Fiscal, empresa com 20 anos de atuação em inteligência tributária para o varejo.
Dados da Receita Federal mostram que, na maioria das vezes, a retenção na malha fina ocorre por falhas comuns no preenchimento da declaração, e não por tentativa de fraude. O principal motivo é o lançamento incorreto de despesas médicas, responsável por 32,6% dos casos. Em seguida aparecem omissão de rendimentos (30,8%), outras deduções (16%) e divergências no imposto retido na fonte (15,1%).
Para Tonegutti, as despesas médicas costumam gerar inconsistências porque muitos contribuintes informam valores incorretos ou incluem gastos que não são aceitos como dedutíveis pela Receita.
“Porque é uma área em que o contribuinte costuma errar muito no detalhe. Lança valor errado, informa uma despesa que não é dedutível, inclui algo sem comprovante suficiente ou se esquece de descontar o reembolso do plano. E saúde pesa muito, porque é uma dedução sensível para a Receita. É a despesa que pode gerar o maior impacto na dedução do imposto a pagar! Então, as pessoas tendem a lançar tudo, mas tem despesa que não é dedutível! Por exemplo, gastos com vacina, nutricionista, enfermeiro, etc., são até gastos com saúde, mas não são dedutíveis do imposto de renda! O jeito de evitar é simples na teoria, mas exige disciplina: declarar só o que foi efetivamente pago, conferir recibo por recibo e não confiar cegamente no que já veio carregado no sistema”, ressalta.
Cuidado com rendimentos
Outro ponto de atenção é a omissão de rendimentos, considerada pelo especialista uma das armadilhas mais frequentes. Além do salário principal, receitas extras como aluguel, estágio, aposentadoria, pensão, trabalhos autônomos, aplicações financeiras e até rendimentos de dependentes precisam ser incluídos na declaração.
“Aqui mora uma armadilha clássica: a pessoa lembra do emprego principal, mas esquece outra renda. Pode ser aluguel, estágio, aposentadoria, um freela, uma pensão, uma aplicação, ou até o rendimento do dependente. E esse detalhe do dependente é decisivo: se ele entra na declaração, os rendimentos dele entram junto também. É muito comum quem comprou e vendeu ações ou Fundos de Investimento Imobiliários terem problema por não declarar a renda que teve com essas operações!”, pontua.
No grupo classificado como “outras deduções”, Tonegutti destaca erros relacionados à inclusão de dependentes, gastos educacionais lançados fora das regras, preenchimento incorreto de pensão alimentícia e escolhas inadequadas entre os modelos de tributação.
“Entra um conjunto de tropeços muito comuns: dependente declarado em lugar errado, gasto com educação fora da regra, pensão alimentícia preenchida incorretamente, dedução sem documento e até escolha errada entre desconto simplificado e deduções legais. Muita gente tenta ‘montar’ a declaração achando que vai pagar menos, quando o melhor caminho é usar o sistema a seu favor. O programa compara os modelos e mostra qual é o mais vantajoso”, esclarece.

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