infraestrutura

Gato de energia solar encarece conta de luz

Levantamento estima prejuízo de R$ 5 bilhões para o setor elétrico por fraudes em energia fotovocaica em 2026

economia energia 3105 -  (crédito: arte)
economia energia 3105 - (crédito: arte)

Uma nova modalidade de irregularidade no setor elétrico brasileiro acendeu o alerta de especialistas sobre o impacto crescente na conta de luz dos consumidores. Estudo da consultoria RAD Energia no Mercado, obtido em primeira mão pelo Correio, estima que práticas de geração distribuída clandestina — apelidadas de "gato no telhado" — podem elevar em cerca de R$ 6 por mês o custo pago pelos brasileiros, o equivalente a aproximadamente R$ 72 por ano para cada consumidor regular.

A fraude ocorre por meio da instalação de sistemas de geração de energia, principalmente solar, sem autorização regulatória ou com potência superior à aprovada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

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Na prática, segundo os pesquisadores, parte dos usuários passa a se beneficiar indevidamente das regras de compensação de energia e dos subsídios do setor elétrico, transferindo os custos para os demais consumidores. "Estamos falando de um impacto direto e concreto de mais R$ 72 na conta de luz anual de cada brasileiro que paga corretamente. Trata-se de uma transferência silenciosa de renda que penaliza quem cumpre a lei", afirmou o CEO da RAD, Reginaldo Medeiros.

O levantamento cita estimativas da própria Aneel, segundo as quais a geração distribuída irregular já pode representar entre 12 e 15 gigawatts (GW) de capacidade instalada no país. Caso esse cenário se confirme, o impacto sobre o setor elétrico poderá chegar a R$ 5 bilhões em custos adicionais em 2026, valor que, segundo a análise, deve acabar sendo repassado às tarifas de energia. "Essa fraude cria um subsídio cruzado perverso. Quem burla o sistema economiza, e quem segue as regras paga a diferença", disse Medeiros.

Além da pressão tarifária, o estudo aponta riscos operacionais para o sistema elétrico nacional. A injeção de energia não prevista na rede pode provocar sobrecargas, inversões de fluxo e instabilidades operacionais, exigindo intervenções do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), incluindo cortes emergenciais de geração em períodos de baixa demanda.

A RAD ressalta, ainda, que as perdas com furtos de energia e fraudes no Brasil já somam cerca de R$ 10 bilhões por ano, o que representa aproximadamente R$ 12 adicionais por mês nas contas de luz. Com a expansão da chamada geração distribuída irregular, esse impacto poderia subir para cerca de R$ 18 mensais por consumidor.

"O consumidor brasileiro já paga caro pela ineficiência e pelas fraudes existentes e, agora, começa a pagar também por uma irregularidade sofisticada, concentrada em áreas de alta renda", destacou Medeiros.

Geração distribuída

O avanço acelerado da geração distribuída (GD) tem intensificado os desafios do setor elétrico brasileiro e ampliado o debate sobre a sustentabilidade do modelo tarifário do país. Em meio ao crescimento dos subsídios e encargos setoriais, uma parcela cada vez maior da conta de luz já não está relacionada diretamente ao consumo de energia, mas aos custos embutidos na tarifa para financiar incentivos, compensações e políticas do setor elétrico.

Impulsionada, principalmente, pela instalação de painéis solares em residências e pequenos estabelecimentos, a geração distribuída no Brasil saltou de apenas 48 megawatts (MW) em 2015 para 43,5 gigawatts (GW) ao fim de 2025. O avanço representa uma expansão de quase mil vezes na capacidade instalada em apenas uma década.

O segmento, que permite ao consumidor produzir a própria energia, vem crescendo de forma acelerada nos últimos anos, impulsionado pela ampliação do crédito para aquisição de equipamentos e por regras mais flexíveis de compensação de energia, consolidando a fonte solar como um dos principais vetores da expansão elétrica no país.

Apesar de ser considerada estratégica para a transição energética e para a ampliação do uso de fontes renováveis, especialistas avaliam que o avanço acelerado desse modelo também tem imposto desafios operacionais e tarifários ao sistema elétrico.

Em termos agregados, os encargos setoriais representam cerca de 20% da conta de energia, segundo estimativas do setor, podendo variar conforme o perfil de consumo e a distribuidora. Dentro dessa fatia está a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que reúne subsídios destinados à tarifa social, incentivos a fontes renováveis e custos associados à geração distribuída.

O presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales, alerta que o avanço acelerado da geração distribuída, especialmente da energia solar residencial, já provoca efeitos sistêmicos na operação da rede elétrica e amplia os custos repassados às tarifas. "O problema é muito grave. A geração distribuída está injetando energia na rede e deslocando a geração previamente contratada, forçando o ONS a despachar outras fontes", afirmou.

Existe um paradoxo no avanço da geração solar. Apesar de ser uma fonte limpa e renovável, sua produção ocorre apenas durante o período de incidência de luz. Com isso, no horário de pico da noite, quando a geração fotovoltaica deixa de operar e o consumo aumenta, o sistema elétrico precisa recorrer a usinas termelétricas, que são mais caras e mais poluentes.

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Esse movimento aumenta o custo operacional do sistema elétrico, pressiona os encargos setoriais e contribui para a elevação da conta de luz. Segundo Sales, o atual sistema de compensação de créditos e os encargos associados à geração distribuída acabam sendo compartilhados entre todos os usuários do sistema elétrico por meio da CDE. "Quando você olha a conta de luz, uma parte é energia, outra é distribuição e uma parcela cada vez mais relevante são os encargos. Esse custo vem crescendo fortemente ao longo dos anos", disse.

O especialista também criticou a velocidade de expansão dos subsídios e a demora na revisão das regras do setor. "A geração distribuída cresceu muito além do que era a expectativa original. Houve um certo exagero e isso começou a pressionar o sistema de encargos", avaliou.

Para Sales, o principal desafio da transição energética é equilibrar os incentivos às fontes renováveis com a modicidade tarifária e a segurança do sistema elétrico. "O ponto central é que, se você não tiver uma sinalização correta de custos e benefícios, você acaba incentivando mais e mais fontes que dependem de armazenamento e aumentam o custo para todo mundo."

Desperdício

O crescimento intenso da geração distribuída também expôs um novo desequilíbrio no setor elétrico. Ao mesmo tempo em que amplia a participação das fontes renováveis na matriz energética, a expansão da energia solar também tem contribuído para desperdícios de energia, cortes operacionais e prejuízos bilionários ao sistema.

O fenômeno, conhecido como curtailment, ocorre quando usinas precisam reduzir ou interromper temporariamente a geração para preservar a estabilidade da rede elétrica diante do excesso de oferta de energia.

Segundo o relatório Curtailment 2025: retrospectiva e projeção, da Volt Robotics, cerca de 20,6% de toda a geração solar e eólica disponível no país foi desperdiçada entre janeiro e dezembro devido a limitações operacionais e restrições na capacidade de escoamento da rede. Em termos financeiros, a energia que deixou de ser aproveitada representou perdas superiores a R$ 6 bilhões ao longo do ano.

Como a energia produzida por painéis solares instalados em residências, comércios e pequenas empresas não é controlada diretamente pelo ONS, o avanço da geração distribuída reduz a demanda atendida pelas distribuidoras durante o dia, sobretudo nos horários de maior incidência solar.

Com isso, em períodos de baixa demanda e elevada produção de energia solar, o sistema passa a registrar excesso de oferta, obrigando o ONS a determinar cortes em usinas centralizadas, principalmente parques eólicos e grandes usinas solares, para evitar sobrecargas e riscos à estabilidade do sistema elétrico.

Para o professor de engenharia elétrica da Universidade de Brasília (UnB) Ivan Camargo, o aumento do curtailment decorre de um problema estrutural associado à rápida expansão das fontes renováveis, e não de falhas pontuais de planejamento ou de transmissão. "Isso está acontecendo no mundo inteiro. É um problema estrutural", destacou.

Segundo Camargo, esse descompasso não se resolve apenas com a expansão da rede. "Não há linha de transmissão que resolva esse problema. Transmitir energia exige que exista carga do outro lado, e essa carga simplesmente não existe ao meio-dia, que é justamente quando a geração solar atinge o pico", disse.

No curto prazo, avalia o professor, os cortes de geração tendem a continuar. Já a solução estrutural passa pela criação de novas cargas capazes de absorver a energia nos horários de sobra, como armazenamento e outros usos, o que exige investimentos de longo prazo.

 

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postado em 31/05/2026 03:55
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