Sistema financeiro

Novas regras do FGC freiam CDBs acima da média e reforçam segurança

Especialistas avaliam que medidas do Banco Central, em resposta à crise do Master, elevam exigências sobre bancos e devem reduzir a oferta de CDBs com retornos muito acima do mercado

As mudanças anunciadas pelo Banco Central (BC) nas regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) são vistas por especialistas como uma resposta direta à crise do conglomerado Master. O caso expôs riscos de estratégias de captação agressivas, baseadas na garantia do fundo e na oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com retornos muito acima da média do mercado.

Segundo o conselheiro federal de Economia, Pedro Afonso Gomes, a principal alteração é a criação do Ativo de Referência (AR), indicador que mede a qualidade dos ativos de cada banco. Ele avalia que o caso do Master mostrou como as instituições podem crescer rapidamente sem o devido lastro.

O banco atraiu investidores com CDBs que pagavam taxas muito acima da média do mercado — chegando a 140% do CDI — como forma de acelerar a captação e compensar dificuldades de acesso a crédito. O modelo, porém, mostrou-se frágil, por depender de ativos de baixa liquidez e por estar associado a problemas de gestão, suspeitas de fraudes e a um rombo bilionário.

Para Gomes, o objetivo das mudanças é “coibir o risco moral” de instituições que assumiam posições mais agressivas justamente por contar com a proteção do FGC. “Para os bancos, o custo regulatório de emitir CDBs aumenta, e ofertas com taxas muito agressivas tendem a desaparecer. Para investidores, a segurança sobe, mas a rentabilidade dos CDBs mais atrativos diminui”, afirmou.

Na avaliação do sócio da Valor Investimentos Daniel Teles, o principal efeito prático é o encarecimento e a maior qualificação das captações. “O incentivo muda, os bancos passam a ter que demonstrar capacidade de emissão desses CDBs e garantir que esses papéis estejam lastreados em ativos de maior liquidez e melhor qualidade”, disse. Para ele, a tendência é de maior disciplina e menor espaço para emissões agressivas.

Crescimento dos bancos menores

Na mesma linha, o especialista Gabriel Cecco afirma que o foco do regulador é alterar o padrão de crescimento dos bancos menores. “A medida busca evitar que uma instituição cresça rápido demais, captando com taxas muito acima do mercado e se apoiando na sensação de segurança do FGC”, afirmou. Segundo ele, o caso Master ajudou a evidenciar esse risco e acelerou a resposta regulatória.

O head de ações da Levante Investimentos, Flávio Conde, avalia que o impacto será mais forte sobre os bancos de menor porte, que perdem flexibilidade para alavancar captações. Ele lembra que a expansão de CDBs com retornos muito acima da média estava ligada à percepção de baixo risco para o investidor. “Quando você não tem nenhum risco para o investidor, ele aceita qualquer taxa”, afirmou.

Com as novas regras, essa dinâmica tende a perder força. “Com o encarecimento da captação para os bancos menores, a tendência é a redução da oferta de CDBs com taxas extremamente altas, que chegavam a 130% do CDI ou mais”, disse. “É uma medida para deixar o sistema menos arriscado”, completou.

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