
A experiência de compra no varejo brasileiro começa a incorporar a acessibilidade sensorial como parte da estratégia de atendimento ao consumidor. A partir de agosto, a Sephora Brasil implementará o programa "Compras Calmas" em suas 47 lojas, oferecendo horários específicos com iluminação reduzida, música desligada, telas estáticas e ausência de fragrâncias no ambiente.
A iniciativa coloca em evidência um tema que ganha espaço no setor: como tornar os espaços comerciais mais inclusivos para pessoas neurodivergentes.
A proposta busca reduzir estímulos que podem provocar sobrecarga sensorial, especialmente em pessoas autistas. Ambientes com luzes intensas, música ambiente, anúncios sonoros, cheiros marcantes e grande circulação de pessoas fazem parte da rotina de muitas lojas, mas podem representar um obstáculo para parte dos consumidores.
Segundo a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, a adaptação vai além do conforto e permite ampliar a autonomia dessas pessoas durante a experiência de compra.
"O cérebro recebe informações o tempo todo. Sons, luzes, cheiros e movimentos são processados simultaneamente. Para muitas pessoas autistas, esse processamento acontece de maneira diferente, fazendo com que estímulos comuns para a maioria sejam percebidos de forma muito mais intensa. O resultado pode ser um nível elevado de estresse, ansiedade e, em alguns casos, uma verdadeira sobrecarga sensorial", afirmou.
Ela explica que, quando o cérebro precisa concentrar energia para lidar com o ambiente, sobra menos capacidade para realizar tarefas como escolher produtos, interagir ou até permanecer no local.
"Não estamos falando de preferência ou sensibilidade exagerada. Estamos falando de um funcionamento neurológico diferente. Reduzir estímulos permite que essas pessoas tenham mais autonomia para fazer escolhas e viver experiências que muitas vezes acabam evitando", acrescentou.
Novo olhar sobre o consumidor
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o Brasil possui cerca de 2,4 milhões de pessoas autistas. Apesar desse contingente, especialistas avaliam que o varejo ainda é planejado, em grande parte, para um único perfil sensorial. Para Mayra Gaiato, a adoção de medidas de acessibilidade representa uma mudança na forma como o setor enxerga esse público.
"Durante muitos anos, a adaptação esteve concentrada quase exclusivamente na escola e nos serviços de saúde. Quando o varejo passa a pensar em acessibilidade sensorial, ele envia uma mensagem importante: pessoas autistas também consomem, frequentam lojas, fazem escolhas e têm direito a viver essas experiências com conforto e dignidade", disse.
Ela ressalta ainda que ambientes com menos estímulos beneficiam também crianças pequenas, idosos e pessoas com transtornos de ansiedade, enxaqueca, TDAH e outras condições.
Tendência para a experiência do cliente
Na avaliação da médica especialista em saúde da pele e medicina estética Telma Giordani, a iniciativa também amplia o acesso ao autocuidado para consumidores que costumam evitar ambientes altamente estimulantes.
"O autocuidado também faz parte da saúde. Muitas mulheres autistas acabam abrindo mão dessas experiências porque o ambiente é desconfortável ou até doloroso para elas. Quando empresas reduzem barreiras sensoriais, elas ampliam o acesso ao bem-estar e permitem que essas mulheres exerçam um direito que muitas vezes parece simples para quem não vive essa realidade", afirmou.
Segundo ela, o mercado de beleza já caminha para uma experiência cada vez mais personalizada. "Inclusão também significa pensar em diferentes formas de receber as pessoas. Não basta oferecer produtos para todos. É preciso criar ambientes onde todos consigam permanecer com conforto e autonomia", concluiu.
Para a jornalista Debora Saueressig, de 49 anos, diagnosticada como autista na vida adulta, a tendência é que a acessibilidade sensorial deixe de ser exceção e passe a integrar a experiência de consumo. Mãe de Benjamin, de oito anos de idade, também autista, conhece essa realidade na prática.
"A verdadeira acessibilidade começa quando as pessoas deixam de precisar pedir adaptações porque elas já fazem parte do ambiente. Quanto mais empresas compreenderem isso, mais natural será construir espaços onde diferentes formas de perceber o mundo possam coexistir", finalizou.

Economia
Mundo
Brasil