O embaixador da Irlanda no Brasil, Martin Gallagher, afirmou que a União Europeia não pretende flexibilizar as exigências sanitárias que levaram à suspensão das exportações brasileiras de produtos de origem animal para o bloco. A Irlanda ocupa, desde 1º de julho, a presidência rotativa do Conselho da União Europeia (UE).
A partir de 3 de setembro de 2026, o Brasil deixará de integrar a lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal ao mercado europeu, após não atender às normas da UE sobre o controle do uso de antimicrobianos na produção animal. Com isso, ficarão suspensas as exportações de carne bovina, de frango, pescado, mel e outros produtos de origem animal para países do bloco europeu.
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Segundo Gallagher, os critérios adotados pela União Europeia não representam uma mudança recente e vêm sendo discutidos há anos com as autoridades brasileiras. "Essas exigências relacionadas aos padrões para uso de antimicrobianos não são novas. Elas já são conhecidas há bastante tempo, e a União Europeia vinha mantendo diálogo com as autoridades brasileiras sobre esses padrões há algum tempo", afirmou em entrevista ao G1.
O diplomata ressaltou que a exclusão do Brasil da lista de exportadores autorizados decorreu de uma avaliação exclusivamente técnica conduzida pelo comitê responsável da União Europeia. De acordo com ele, outros países sul-americanos conseguiram cumprir as exigências sanitárias e mantiveram acesso ao mercado europeu.
"O comitê avaliou diversos países, e aqueles que atenderam tecnicamente aos requisitos permaneceram na lista de exportadores autorizados a vender para a União Europeia. A regra é muito simples: quem atende aos padrões permanece na lista; quem não atende, deixa de fazer parte dela. Os padrões técnicos estão no centro da União Europeia e do próprio projeto europeu", declarou.
Enquanto o bloco mantém a posição, representantes da indústria brasileira avaliam que será difícil cumprir as exigências antes da entrada em vigor da medida. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) afirmou na última semana que há "grandes chances" de o setor não conseguir adequar toda a cadeia produtiva dentro do prazo. Segundo a entidade, a adaptação completa da pecuária bovina aos novos requisitos sanitários demanda cerca de 30 meses, em razão do ciclo de produção dos animais.
Cota chinesa
Além das restrições impostas pela União Europeia, o setor brasileiro de carne bovina deve enfrentar um segundo semestre mais desafiador em razão da cota anual de importação da China. O mecanismo estabelece um volume máximo de carne que pode ser importado pelo país asiático com tarifa reduzida de 12%. Após o esgotamento desse limite, passa a incidir uma sobretaxa de 55%, elevando a tributação total para 67% e tornando as exportações economicamente inviáveis.
Para o Brasil, a cota anual foi fixada em 1,106 milhão de toneladas, volume inferior ao exportado em 2025, quando os embarques para a China superaram 1,6 milhão de toneladas. Com o ritmo acelerado das vendas no primeiro semestre, o limite foi totalmente consumido ainda em meados do ano.
Como consequência, os embarques foram interrompidos em julho, enquanto frigoríficos passaram a reduzir o ritmo de produção, com diminuição dos abates e adoção de medidas como férias coletivas para evitar exportações sujeitas à tarifa mais elevada.
O desempenho das exportações brasileiras permaneceu forte na primeira metade do ano. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), mostram que as vendas externas de carne bovina somaram US$ 9,929 bilhões entre janeiro e junho, alta de 33,4% em relação ao mesmo período de 2025.
A expectativa da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), no entanto, é de desaceleração no segundo semestre, diante da interrupção dos embarques para a China e das novas barreiras impostas ao acesso do mercado europeu.
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