Brasil x Argentina

Briga entre Lula e Milei abala, mas não trava negociações comerciais

Tensão com ataques do presidente argentino estremece os canais institucionais que apoiam empresários dos dois países, mas comércio segue após rebaixamento diplomático

Crise com o país vizinho foi desencadeada por falas de Milei contra Lula, a quem chamou de
Crise com o país vizinho foi desencadeada por falas de Milei contra Lula, a quem chamou de "presidiário" - (crédito: Ricardo Stuckert/PR)

A troca de farpas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei, da Argentina, culminou no rebaixamento diplomático da relação bilateral, com a retirada do então embaixador brasileiro em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para a entrada do encarregado de negócios Eduardo Uziel, que fará a interlocução dos interesses do Brasil no país vizinho.

Com a redução diplomática entre os países, a tendência será de afastamento nas relações. Fontes próximas ao presidente Lula disseram ao Correio projetar que o governo Milei convoque o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, de volta a Buenos Aires, em represália.

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No entendimento do Planalto, embora o Brasil não tenha feito críticas à atuação de Raimondi e sequer planeje colocá-lo sob a pecha de persona non grata, a representação argentina por meio de um embaixador não faria sentido no contexto em que Brasília optou pelo rebaixamento diplomático.

Porém, se, no campo político, o ruído institucional travou o diálogo entre os chefes de Estado, no ambiente de negócios a regra tem sido o pragmatismo na relação bilateral.

Especialistas classificam que o rebaixamento da representação oficial em Buenos Aires pode ter um peso simbólico, mas não é capaz de paralisar as trocas comerciais entre as duas maiores economias da América do Sul.

Na avaliação do diretor de comércio internacional e relações governamentais da BMJ Consultores, José Pimenta, é baixo o risco comercial após o ruído diplomático entre os países. "A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil e o principal destino de nossos manufaturados — como carros, autopeças e máquinas — mas, historicamente, picuinhas políticas entre presidentes não travam esse fluxo, uma vez que ele corre por canais técnicos e a relação simbiótica entre os países é muito grande", explicou, ao definir que a troca do embaixador por um encarregado de negócios pode mudar a "temperatura política", mas não o fluxo comercial.

Essa avaliação é endossada pela professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Carolina Pedroso.

"O rebaixamento tem muito mais um valor simbólico para a diplomacia, mas não afeta diretamente o comércio, até porque o encarregado de negócios tem a função primordial de garantir que o setor privado dos países não seja atingido por uma piora da relação política", pontuou.

Ela frisou que a preservação dos canais privados de relação bilateral ocorre até em cenários geopolíticos mais extremos. "Mesmo quando Estados Unidos e Venezuela chegaram a uma ruptura diplomática completa, os encarregados de negócios foram os representantes diplomáticos que garantiram que petroleiras americanas continuassem operando em território venezuelano", ponderou Carolina.

As estatísticas de trocas comerciais entre Brasil e Argentina podem ser checadas por sistemas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). 

Entre janeiro e julho deste ano, as exportações brasileiras para o país vizinho somaram US$ 8,76 bilhões — uma queda de 18,6% em relação aos US$ 10,76 bilhões registrados no mesmo período de 2025. O recuo, no entanto, é atribuído pelos especialistas a fatores estritamente econômicos da Argentina, como a recessão interna, a oscilação cambial e o controle de divisas, e não a sanções ou retaliações motivadas pelo mal-estar diplomático entre Brasília e Buenos Aires.

Aumento de custos

Os ruídos entre Brasil e Argentina, embora especialistas digam não serem capazes de quebrar a relação comercial entre os países, podem aumentar custos e riscos enfrentados por empresas brasileiras que mantêm contratos e operações com o país vizinho. 

Segundo o CEO da Casa Política e ex-diretor da ApexBrasil e do Senado Federal, Márcio Coimbra, o  principal efeito para as empresas é o aumento do risco regulatório e do custo de transação, especialmente diante da redução do diálogo institucional entre os dois países.

Mesmo em um ambiente de deterioração diplomática, o especialista afirmou que os fluxos comerciais tendem a continuar, sobretudo em setores que possuem cadeias produtivas integradas e forte dependência mútua. Entre eles estão os segmentos automotivo, de autopeças e de bens de capital.

O problema, de acordo com Coimbra, está na dificuldade de as empresas contarem com a interlocução dos governos para solucionar entraves que possam surgir nas operações. 

A ausência de um diálogo de alto nível pode dificultar a resolução de problemas alfandegários, a liberação de licenças de importação e questões relacionadas às restrições cambiais argentinas.

Para o especialista, o enfraquecimento da interlocução também compromete a capacidade dos dois países de atualizar acordos operacionais e coordenar políticas industriais conjuntas. Com isso, empresas que dependem da relação bilateral ficam mais expostas às decisões tomadas individualmente por cada governo.

Concorrência

Outro fator apontado por Coimbra como preocupação em relação ao Brasil é a abertura do mercado argentino a concorrentes asiáticos. Segundo ele, a desregulamentação promovida unilateralmente por Buenos Aires pode ampliar o espaço para produtos de países como a China, aumentando a pressão sobre empresas brasileiras que já atuam no mercado argentino.

Nesse cenário, o risco para os negócios não seria necessariamente uma ruptura imediata dos contratos, mas uma deterioração gradual das condições de competitividade. 

Empresas brasileiras podem continuar operando no país, porém, em um ambiente marcado por maior incerteza, custos adicionais e dificuldades para solucionar problemas por meio da interlocução governamental.

Na avaliação de Coimbra, o enfraquecimento da coordenação entre Brasil e Argentina acaba transferindo para o setor privado uma parcela maior do custo de operar em um ambiente de instabilidade política e regulatória.

Para as companhias que mantêm relações comerciais com o país vizinho, o desafio passa a ser preservar os negócios em meio a um cenário no qual as relações institucionais deixam de oferecer o mesmo grau de previsibilidade, apesar do histórico de relações comerciais com a Argentina, um dos maiores parceiros econômicos do Brasil no continente.

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postado em 10/08/2026 05:00
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