
Com a expansão do acesso aos serviços financeiros e do uso do cartão de crédito no Brasil, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, avalia que há um efeito colateral nos dados sobre o endividamento das famílias. Em palestra concedida nesta segunda-feira (24/8), na abertura da Febraban Tech 2026, o chefe da autoridade monetária destacou que o aumento das dívidas das famílias ocorre, normalmente, em períodos de juros mais baixos, e não mais elevados, como o atual.
“Não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu. O crédito que um banco ou uma instituição financeira dá é a dívida que alguém tomou. E aí, acreditem, a maior razão do endividamento é a dívida”, disse o presidente do BC.
Galípolo comentou, ainda, que é normal esperar um endividamento maior em um cenário de promoção ao crédito, com medidas de estímulo a segmentos específicos, ou com a popularização dos serviços financeiros. “Toda a literatura utilizada e conhecida com todos os dados mostra que sempre o crescimento do endividamento se dá em um período onde a taxa de juros costuma estar mais baixa, e não mais alta”, acrescentou.
A taxa básica de juros chegou a permanecer durante mais de seis meses em um patamar de 15% ao ano. Atualmente, a Selic ainda está em um ambiente contracionista, mas a 14% a.a., desde a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) deste mês de agosto. O mercado financeiro ainda trabalha com juros em dois dígitos até o final de 2029, como indica o relatório Focus, do BC.
Segundo Galípolo, em vez de reduzir o endividamento, há um movimento atípico de elevação das dívidas das famílias com a Selic mais elevada. Durante a apresentação, ele mostrou que medidas para favorecer a tomada de crédito também contribuem para esse cenário e citou o Consignado Privado para CLTs, que registrou crescimento de 145% nessa linha entre março de 2025 e março deste ano. No mesmo período, a inadimplência, medida pelo Relatório de Política Monetária (RPM), saltou de 5% para 6,7%.
O presidente do Banco Central ressaltou, no entanto, que nem todo tipo de endividamento é um problema. “Muito pelo contrário, como a gente falou, quando alguém toma alguma dívida, como, por exemplo, no setor imobiliário, e compra uma casa, ela está constituindo um ativo. O problema é você estar endividado com alguma coisa que não está constituindo um ativo, é um consumo efêmero”, frisou.
Diante desse cenário, o chefe da Política Monetária ressaltou, ainda, que um dos objetivos do Banco Central para o novo ciclo, a partir de 2027, é trabalhar pela redução do endividamento por motivos efêmeros, como os apontados pelo presidente.
“Com uma taxa de juros mais restritiva, a gente ainda enxerga um processo de endividamento elevado, com uma inadimplência crescente, o que costuma acontecer quando você não vê essa suavização, que é comum nos processos de ciclo. É isso que é o ciclo do Banco Central nesse próximo período”, concluiu.

Economia
Economia
Economia
Economia