
Dando sequência à série de empresas brasileiras com dificuldade financeira que recorrem à Justiça para renegociar dívidas, a Braskem é a mais nova a entrar nessa lista com milheres de empresas na mesma situação. Na madrugada de ontem, a companhia informou ter um acordo com os credores para protocolar a recuperação extrajudicial. E, ao longo do dia, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) informou que retirou as ações da petroquímica da lista dos papéis do Índice Bovespa (IBovespa), principal indicador da B3, a partir de hoje.
A recuperação extrajudicial da Braskem foi acertada no prazo limite concedido pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, que havia suspendido por 60 dias determinadas execuções e bloqueios de bens, na tentativa de dar fôlego à companhia em meio às negociações com os credores. Conforme informações do Fato Relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a companhia informou ter dívidas financeiras para a renegociação com credores que chegam perto de US$ 10,9 bilhões — o equivalente a R$ 56,1 bilhões pelo câmbio encerrado ontem.
Após a Justiça paulista concordar com o pedido da Braskem, as ações da companhia despencaram mais de 6% na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), ontem, e lideraram as perdas da B3, com queda de 6,71%, para R$ 4,74, a menor cotação em cinco anos. Apesar do tombo da Braskem, a B3 fechou no azul, com alta de 0,51%.
Além do IBovespa, as ações da B3 foram retiradas de outros índices da B3, como o IBrX (Ibra), IBrX-50 (IBXX), Small Caps (SMLL) e Itag Along (Itag).
Segundo o comunicado da Bolsa publicado na Agência Bovespa, a exclusão ocorrerá ao preço de fechamento após o encerramento do pregão regular de 25 de agosto. E, com isso, a participação da petroquímica será redistribuída proporcionalmente entre os demais integrantes das carteiras, com ajuste nos redutores. No fim do pregão de ontem, a B3 ainda fechou no azul, como alta de 0,51%, aos 171.907 pontos.
Com mais de duas décadas no mercado petroquímico, a Braskem atravessa a pior fase da empresa desde quando foi criada, em 2002, com a fusão de seis empresas da Organização Odebrecht e do Grupo Mariani, e também esteve envolvida no escândalo deflagrado pela Operação Lava-Jato, da Polícia Federal.
A Braskem tem a Petrobras como uma das maiores acionistas. E, desde junho, o controle compartilhado entre a estatal e um fundo ligado à gestora IG4 Capital, que é conhecida no mercado por assumir o comando de empresas que estão em crise financeira e recuperar os ativos e a saúde dessas companhias.
Além disso, a estatal assumiu uma presença mais ativa nas decisões da empresa, o que teria contribuído para o aceite dos termos da recuperação extrajudicial. Na época, Hélcio Tokeshi assumiu o cargo de CEO da Braskem e afirmou que a chegada da IG4, em parceria com a Petrobras, tinha o objetivo de "superar os desafios", além de preservar a "relevância estratégica" da companhia para a cadeia química e petroquímica. "O foco, agora, é na execução: reorganizar a estrutura financeira, melhorar a eficiência operacional preservando a liquidez e otimizando a geração de caixa. Será um trabalho em conjunto com a Petrobras e a IG4 e com foco total no desenvolvimento da companhia", disse.
Os novos gestores assumiram uma companhia que ainda passa por intensa volatilidade nas operações, além de pressão sobre as margens. Não bastassem os problemas internos, os controladores também têm de lidar com o aumento da concorrência global no setor, o que fez com que a companhia iniciasse um processo de revisão e fortalecimento da estratégia de longo prazo.
Balanço positivo
O pedido de recuperação extrajudicial da Braskem ocorre 10 dias após a empresa informar a companhia ter informado aos acionistas que reverteu o prejuízo do primeiro trimestre de 2026. A medida busca ganhar fôlego com os credores e evitar que a situação da empresa se agrave em meio aos problemas de caixa devido às perdas financeiras dos últimos anos.
Em 2018, a extração de sal-gema pela Braskem em túneis subterrâneos em Maceió provocou um afundamento do solo em cinco bairros da capital alagoana, desalojando cerca de 60 mil pessoas. Devido aos vários processos na Justiça, a companhia já desembolsou mais de R$ 4 bilhões em compensações e auxílios financeiros para famílias e comerciantes afetados. Além disso, a empresa ainda firmou um acordo de R$ 1,7 bilhão com a prefeitura de Maceió para ressarcir prejuízos.
Conforme o balanço divulgado no último dia 14, a companhia registrou um lucro líquido de
R$ 3,3 bilhões no segundo trimestre de 2026, revertendo totalmente o prejuízo de R$ 267 milhões registrado nos três primeiros meses de 2026. Já a receita líquida da companhia somou R$ 21,7 bilhões no trimestre, o que representa um crescimento de 22% ante o mesmo período do ano anterior.
Apesar desse resultado positivo, as ações da companhia desabaram 7%, naquele dia, em razão de uma percepção negativa que já influenciava os investidores. Analistas acreditam que é difícil apontar para uma recuperação a longo prazo, já que os balanços da Braskem indicam uma oscilação forte de um período para o outro.
Na visão do analista Pedro Galdi, da AGF Investimentos, as operações foram favorecidas no trimestre em razão do aumento de preços do petróleo no mercado internacional, que foi repassado como margem para as empresas. O especialista lembrou que o petróleo passa por um ciclo de queda no momento, com o esfriamento das tensões no Oriente Médio. Ele informou, ainda, que acredita que o resultado do terceiro trimestre da Braskem deve ser inferior ao último balanço. "O resultado foi muito bom, mas o cenário de dívida elevada ainda é complicado", acrescentou.
De acordo com Galdi, o plano para recuperar a Braskem deve ser semelhante ao utilizado no caso da Raízen, que aprovou a recuperação extrajudicial em julho de 2026 para reestruturar uma dívida de cerca de R$ 61,4 bilhões. "Será provavelmente uma troca de dívida por ações", comentou. Para o analista, a entrada da Petrobras com mais força pode ser benéfica para sanar os resultados da empresa, mas pondera que o caminho para o equilíbrio da companhia ainda deve ser longo. Entre os principais credores da empresa estão detentores de títulos e instituições financeiras, como Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander.
Além do Brasil, a petroquímica possui unidades industriais nos Estados Unidos, na Alemanha e no México. A empresa se define como a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas. Sua produção é focada nas resinas polietileno (PE), polipropileno (PP) e policloreto de vinila (PVC), além de insumos químicos básicos como eteno, propeno, butadieno, benzeno, tolueno, solventes, entre outros.
Proteção jurídica
O pedido de recuperação extrajudicial da Braskem cria um ambiente de proteção jurídica para que a companhia negocie a reestruturação de sua dívida financeira com os credores, que ultrapassam R$ 56 bilhões, conforme o Fato Relevante da companhia.
A partir de agora, um dos principais desafios será reunir o apoio necessário para que o plano possa ser aprovado e aplicado aos credores abrangidos. Segundo o advogado especialista em reestruturação empresarial Filipe Denki, a reforma promovida pela Lei nº 14.112/2020 tornou esse tipo de procedimento mais efetivo ao permitir a aplicação do chamado "stay period", período em que ficam suspensas determinadas medidas contra a empresa.
De acordo com Denki, a Braskem não precisa apresentar o pedido já com o apoio definitivo dos credores. A legislação permite que a empresa dê início ao procedimento com a adesão de credores que representem pelo menos um terço dos créditos de cada espécie abrangida pelo plano.
A companhia terá até 90 dias, sem possibilidade de prorrogação, para alcançar o quórum definitivo, que exige a aprovação de mais da metade dos créditos de cada espécie incluída na recuperação. "Há aqui uma inovação fundamental da reforma de 2020: a Braskem não precisa chegar ao Judiciário já com o quórum definitivo. Pelo art. 163, § 7º, pode apresentar o pedido com a adesão de credores que representem pelo menos 1/3 dos créditos de cada espécie abrangida e terá 90 dias, improrrogáveis, para alcançar o quórum definitivo de mais da metade dos créditos de cada espécie", afirmou.
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Outro ponto relevante da reestruturação envolve o papel dos acionistas controladores da Braskem, especialmente Petrobras e IG4, em uma eventual capitalização da companhia. Para Jansonn Mendonça, especialista em reestruturação empresarial e advogado do Bento Muniz Advocacia, é preciso diferenciar a participação societária da obrigação de realizar novos aportes.
"A Petrobras detém aproximadamente 47% das ações ordinárias da Braskem, enquanto o Shine I FIP, ligado à IG4, detém pouco mais de 50%. Ambos possuem participação muito relevante na governança da companhia e, naturalmente, qualquer solução estrutural envolvendo aumento de capital dependerá das deliberações societárias e das condições previstas no acordo de acionistas", afirmou o advogado.
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