Brasil Digital

Supercomputador fortalece soberania brasileira em IA

Infraestrutura poderá acelerar pesquisas, serviços públicos e desenvolvimento de modelo adaptados à realidade brasileira

Equipamento amplia a capacidade brasileira de processamento de dados e desenvolvimento de soluções -  (crédito: Meta)
Equipamento amplia a capacidade brasileira de processamento de dados e desenvolvimento de soluções - (crédito: Meta)

O investimento do Brasil em um supercomputador busca ampliar a autonomia tecnológica do país e desenvolver soluções de inteligência artificial (IA) para demandas nacionais. A infraestrutura poderá atender a governo, universidades, centros de pesquisa e empresas, com aplicações em áreas como saúde, agricultura, meteorologia, educação e serviços públicos digitais. Esta é a segunda reportagem da série Brasil Digital.

Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o equipamento permitirá ampliar o uso de IA no gov.br, com integração mais rápida e segura de bases de dados públicas, sem custos adicionais para a população. A maior capacidade de processamento também deve acelerar o desenvolvimento de aplicações de IA em serviços públicos, como o atendimento virtual.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Para o MCTI, o reforço da infraestrutura científica permitirá ao Brasil avançar em pesquisas que exigem o processamento de grandes volumes de dados, com aplicações em áreas como previsão de desastres climáticos, saúde, agricultura, exploração de petróleo e desenvolvimento de modelos de IA nacionais.

"O supercomputador possibilitará a incorporação efetiva de novas soluções de Inteligência Artificial no gov.br. Para viabilizar esse avanço, as bases de dados públicas, que reúnem as informações necessárias para prestar serviços ao cidadão, poderão ser integradas de forma muito mais rápida, segura e totalmente gratuita para a população", afirmou a pasta.

Autonomia

Para Rafael Franco, especialista em tecnologia da informação e segurança digital e CEO da Alphacode, o principal efeito do supercomputador não será necessariamente percebido de forma direta pela população, mas por meio dos serviços que poderão ser desenvolvidos a partir da nova infraestrutura. "Eu vejo esse investimento muito mais como uma infraestrutura de base. O brasileiro não vai perceber um supercomputador diretamente no dia a dia, mas pode perceber os serviços desenvolvidos a partir dele", destacou.

Na avaliação do especialista, a estrutura ampliará a capacidade do Brasil de processar grandes volumes de dados, treinar modelos de IA e desenvolver aplicações que hoje dependem de capacidade computacional cara e limitada no país.

Franco cita como possíveis aplicações sistemas de saúde, previsões climáticas, análise de imagens, serviços públicos digitais e pesquisa científica. Segundo ele, a infraestrutura poderá permitir que universidades, governo e empresas desenvolvam tecnologias que cheguem à população.

A instalação no Brasil também pode reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros. Hoje, instituições que precisam de alto poder de processamento recorrem a empresas de outros países e ficam sujeitas à disponibilidade, aos preços e às regras desses fornecedores.

"Ter essa capacidade instalada no Brasil reduz parte dessa dependência e, principalmente, cria uma alternativa nacional", disse Franco. Ele pondera, porém, que o país não deixará de depender do exterior, já que a cadeia de inteligência artificial envolve chips, softwares, modelos, serviços em nuvem e fornecedores internacionais.

Diferencial

Um dos objetivos do MCTI é ampliar a capacidade nacional de desenvolver modelos de IA adaptados às características brasileiras. Segundo o ministério, essa autonomia é especialmente relevante na educação, ao permitir considerar as diferenças culturais e sociais entre as regiões do país. "Os modelos nacionais são fundamentais para a educação de crianças e jovens, pois garantem que sejam respeitadas e reconhecidas as peculiaridades culturais e sociais de cada uma das regiões do país", afirmou a pasta.

O desenvolvimento de modelos próprios pode ampliar o controle sobre dados e aplicações. Franco ressalta, porém, que uma tecnologia nacional não será automaticamente mais segura ou eficiente. Os resultados dependerão da qualidade dos dados, da metodologia e das medidas de segurança adotadas.

"Um modelo pode compreender português, mas isso não significa necessariamente compreender bem o contexto brasileiro", explicou. Ele cita diferenças de linguagem, legislação, serviços públicos, comportamento do consumidor e características regionais como fatores que podem influenciar o desempenho de determinadas aplicações.

Para Fabiano Carvalho, especialista em Transformação Digital e CEO da Ikhon Tecnologia, o investimento é significativo e demonstra a aposta do país em soberania tecnológica. Segundo ele, além de máquinas de alta capacidade, é necessário garantir a classificação e a indexação adequadas dos acervos de universidades, órgãos públicos e empresas, para que os algoritmos possam interpretar e utilizar corretamente os dados disponíveis.

"Nesse ponto, vale ressaltar a importância do Centro Nacional de Transparência Algorítmica para a criação de um ecossistema de IA confiável, com rastreabilidade e boa governança de dados", avaliou.

Potencial de uso na saúde

Na área da saúde, os efeitos podem ser particularmente relevantes. André Bernardes David, médico e especialista em inteligência artificial, afirma que grande parte dos modelos usados atualmente na medicina é treinada com dados de pacientes americanos e europeus.

Com uma infraestrutura nacional de processamento, o Brasil poderia desenvolver sistemas baseados em dados que representem melhor o perfil da população, as doenças mais frequentes e as características do adoecimento no país. "Na saúde, o impacto de um supercomputador dessa escala é bem mais concreto do que parece", afirmou.

Entre as aplicações citadas pelo médico estão algoritmos para análise de mamografias e exames de fundo de olho em regiões com escassez de especialistas. Também são possíveis ferramentas para organizar filas de cirurgia conforme o risco clínico e sistemas capazes de antecipar surtos de dengue ou o aumento da demanda por leitos hospitalares.

David também destaca um problema enfrentado por empresas brasileiras de tecnologia em saúde: a necessidade de contratar capacidade de processamento no exterior. "Ter essa capacidade em território nacional reduz o custo de desenvolver soluções brasileiras, aumenta a segurança no tratamento de dados de pacientes e abre espaço para aplicações que já demonstram resultados", afirmou. Entre essas aplicações, ele cita sistemas de automação da documentação clínica, que podem reduzir o tempo gasto por médicos com tarefas burocráticas.

A capacidade computacional, entretanto, não garante resultados por si só. Para Fabiano Carvalho, especialista em Transformação Digital e CEO da Ikhon Tecnologia, o investimento demonstra a aposta brasileira em soberania tecnológica, mas precisa ser acompanhado da organização das bases de dados que alimentarão os sistemas.

"O investimento é bem significativo e mostra o tamanho da aposta do país em soberania tecnológica. Além da construção de máquinas com alta capacidade de processamento de informações, também é importante garantir que os acervos de universidades, órgãos públicos e empresas que serão usados como fonte de dados possuam classificação e indexação adequadas, para garantir a compreensão pelo algoritmo e permitir que ele trabalhe com todas as informações disponíveis e legíveis", disse.

 

  • Google Discover Icon
postado em 30/08/2026 05:00
x