Em meio às críticas do governo dos Estados Unidos ao Pix, o Banco Central (BC) informou nesta segunda-feira (10/8) que avalia conectar o sistema brasileiro a plataformas de pagamentos instantâneos de outros países. A autoridade monetária considera acordos bilaterais e a participação em hubs multilaterais para viabilizar transações internacionais em poucos segundos.
A informação consta do segundo Relatório Gestão do Pix, referente ao período de 2023 a 2025. Segundo o documento, modelos de pagamentos transfronteiriços desenvolvidos por instituições privadas em parceria com empresas de outras jurisdições já permitem que brasileiros utilizem o Pix no exterior e que não residentes façam pagamentos no Brasil por meio de aplicativos de instituições estrangeiras.
Na avaliação do BC, a integração entre sistemas de pagamentos instantâneos pode reduzir tarifas, aumentar a velocidade das operações, ampliar o acesso e melhorar a transparência das transações internacionais.
“Estão em discussão tanto interligações bilaterais quanto a participação em hubs multilaterais. Essas interligações permitiriam a realização de remessas internacionais e de transações de compra com disponibilização dos recursos em moeda local em poucos segundos”, destacou a autoridade monetária.
A discussão ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos. O Pix foi incluído pelo governo norte-americano em um conjunto de alegadas “práticas comerciais desleais” atribuídas ao país, o que levou à imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras. O presidente Donald Trump também já afirmou que o sistema de pagamentos do Banco Central prejudica empresas do setor nos EUA.
Garantia de crédito
Além da expansão internacional, o BC estuda integrar o Pix ao mercado de crédito. A proposta prevê a utilização de informações e fluxos futuros gerados pelo sistema como suporte ou garantia para operações de financiamento. “A iniciativa busca viabilizar que informações e fluxos originados no ecossistema do Pix possam ser utilizados como suporte a operações de financiamento da atividade econômica”, afirmou o BC no relatório.
De acordo com a autoridade monetária, a medida pode melhorar a qualidade das garantias e reduzir o custo do crédito, sobretudo para empresas que movimentam grande volume de recursos pelo Pix.
O BC também acompanha soluções desenvolvidas por instituições privadas para oferecer crédito durante a própria jornada de iniciação de uma transação. A ideia permite que clientes tenham acesso a alternativas de parcelamento de pagamentos e transferências realizadas pelo sistema.
Participação
O Pix encerrou 2025 com 926 instituições participantes, crescimento de 5,6% em relação ao ano anterior. O número de transações aumentou 25,7% no período, chegando a quase 80 bilhões. O volume financeiro movimentado cresceu 33,8% e superou R$ 35 trilhões.
A expansão do Pix também alterou os hábitos de pagamento dos brasileiros. Pesquisa do BC mostra que a participação do dinheiro em espécie caiu de 76,6% dos pagamentos registrados em 2019 para 40,5% em 2023.
No mesmo período, o Pix passou a representar 24,9% das transações registradas e foi apontado como o meio de pagamento preferido por 64,9% dos usuários, superando o dinheiro em espécie. Entre comerciantes, o sistema também se consolidou como o instrumento mais lembrado e alcançou a segunda posição entre os meios preferidos para recebimentos.
Reforma tributária
O BC também trabalha para adaptar o Pix à implementação do split payment, mecanismo previsto na reforma tributária sobre o consumo para automatizar a retenção e o recolhimento de tributos.
O modelo permitirá que o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) sejam retidos e recolhidos no momento da liquidação financeira de uma operação. A sistemática poderá ser aplicada a pagamentos feitos por Pix, cartões ou transferências.
Na prática, a parcela correspondente aos tributos será direcionada diretamente ao Fisco, enquanto o vendedor receberá o valor líquido da operação. O Banco Central afirmou que acompanha o desenvolvimento do mecanismo e avalia quais ajustes serão necessários nas regras de funcionamento e na infraestrutura do Pix para permitir a integração com o split payment.
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