Atividade econômica

Produção de veículos alcança recorde

Em agosto, foram fabricadas 271,2 mil unidades, maior volume em 7 anos. Previsão do setor é de crescimento de 8,6% este ano

Programas de estímulo, como o Move Brasil e o Carro Sustentável, são apontados como fatores que impulsionam as vendas este ano  -  (crédito: Edesio Ferreira/EM/D.A Press)
Programas de estímulo, como o Move Brasil e o Carro Sustentável, são apontados como fatores que impulsionam as vendas este ano - (crédito: Edesio Ferreira/EM/D.A Press)

São Paulo e Brasília — Em um cenário de juros altos e crédito mais restrito, o setor automotivo é um dos poucos nichos do mercado a apresentar uma tendência de crescimento mais forte para os próximos meses. O sucesso de programas de estímulo, como o Move Brasil e o Carro Sustentável são apontados como fatores para o avanço das vendas de segmentos como motocicletas, automóveis e caminhões. Com juros menores para carros 0 km, as concessionárias devem presenciar um aumento do número de veículos produzidos e emplacados neste ano, como indicam as previsões.

A Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) projeta um crescimento de 8,6% na venda em todos os segmentos, com destaque para um avanço de 10% na comercialização de motocicletas e de 8,8% no caso dos automóveis e comerciais leves. Os dados foram apresentados no 34º Congresso da entidade, realizado no último mês de agosto, em São Paulo.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Na ocasião, o presidente da entidade, Arcelio Junior, destacou que os resultados continuam positivos, mesmo em um ambiente de crédito ainda elevado. "A redução gradual da Selic e a manutenção de um mercado de trabalho aquecido são sinais favoráveis, embora ainda seja necessário acompanhar a evolução da economia nos próximos meses", afirmou.

Para o presidente da Fenabrave, os programas de incentivo favoreceram diferentes segmentos nos últimos meses. "Os automóveis e comerciais leves também tiveram os emplacamentos impulsionados pela alta concorrência entre marcas, que vêm realizando promoções interessantes ao consumidor", acrescentou Junior.

Produção

Ontem, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou os dados da produção veicular no país em agosto, que bateu novo recorde. Foram confeccionadas 271,2 mil unidades nesse período, o que indica um crescimento de 6,8% sobre julho e de 9,4% sobre o mesmo mês do ano anterior. O resultado foi o melhor para o setor desde outubro de 2019, antes da pandemia de covid-19 e reforça o aquecimento das vendas de modelos 0km, mesmo com a queda nas exportações. No acumulado do ano, a produção de veículos já chega perto de 1,9 milhão de unidades, o que representa um crescimento de 8,5% em relação aos primeiros oito meses de 2025.

Também houve um ligeiro aumento de 2,2% nas exportações em agosto, na comparação com o período anterior, com 39,8 mil unidades embarcadas. No acumulado do ano, a queda ainda é de 22,9%, sobretudo em razão da diminuição das exportações para países da América do Sul, como Argentina, Chile e Uruguai. 

A maioria dos modelos fabricados no Brasil foram produzidos com peças vindas do exterior. Os automóveis desse tipo são classificados como SKD (parcialmente desmontadas) ou CKD (totalmente desmontadas) e, juntas, elas representam dois terços das quase 150 mil unidades produzidas a mais em 2026 na comparação com o mesmo período do ano anterior. 

Em relação às vendas, o mês de agosto também foi um sucesso para as concessionárias, que registraram um emplacamento diário médio de 13,1 mil unidades. Foi a segunda maior média do ano, atrás somente de maio, quando esse número chegou a 13,7 mil/dia. No acumulado dos oito meses, a soma total chega a 1,975 milhão de unidades, o que indica um incremento de 18,4% sobre o mesmo período de 2025.

O presidente do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos do Distrito Federal (Sincodiv-DF), Luciano Chagas, explica que há um desejo maior principalmente na categoria de SUVs e que, no caso do DF, o IPVA zero para veículos eletrificados é um fator que também estimula o consumo ainda neste ano. "Houve, a partir de julho, um aumento dos impostos dos veículos eletrificados. Isso forçou as montadoras que trabalham com esses produtos, principalmente as chinesas, a fazer uma importação mais acelerada, mais robusta, consequentemente aumentou muito o estoque desses carros importados da China, por causa da questão tributária", ressaltou Chagas.

Apesar da tendência de alta para o resto do ano, o analista sênior da Tendências Consultoria, Silvio Campos Neto, acredita que o ímpeto no consumo deve ficar mais restrito para 2026, tendo em vista os efeitos defasados da taxa de juros, que devem empurrar a atividade econômica para baixo no próximo ano. O mercado prevê um PIB de apenas 1,5% em 2027, em razão dos juros elevados. “A gente chega ao mesmo cenário de dificuldades, de dívidas altas, juros ainda elevados, a necessidade do governo de promover ajustes nas suas contas, com isso ele vai ter que retirar ou reduzir os estímulos então para 2027 e, fatalmente, a gente vai lidar novamente com a retomada desse ciclo de desaceleração do consumo, de forma geral”, avalia.

Move Brasil

Mesmo com o crescimento das vendas com o Move Brasil para caminhões, dados do governo apontam que o braço do programa voltado para taxistas e motoristas de aplicativo ainda está longe de atingir o objetivo inicial. Dos R$ 30 bilhões reservados para financiar a compra de carros novos, apenas R$ 2,2 bilhões haviam sido aprovados até julho de 2026, o que representa menos de 10% do total. Para o presidente da Anfavea, Igor Calvet, o entrave para a expansão desse programa seriam as instituições financeiras.

“Há uma classe trabalhadora que necessita desse crédito, mas ao mesmo tempo é uma classe trabalhadora que tem um histórico de dificuldade com instituições financeiras. Então parte dessa explicação não é o crédito. É acessar o crédito. Então já era natural que o deslanchar do programa pudesse ter maiores problemas do que qualquer outro problema, pela natureza da análise de risco que precisa ser feita por qualquer instituição financeira”, avaliou o presidente, durante a coletiva de apresentação dos dados na manhã de ontem.

Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou de R$ 150 mil para R$ 200 mil o limite para a concessão de financiamentos pelo programa, na tentativa de chegar mais próximo à meta estabelecida pelo governo. Para o presidente da Anfavea, no entanto, além da análise de risco do crédito, outro desafio é a utilização do Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), que é considerado menos atrativo para as instituições financeiras. “Então acho que são mudanças naturais do programa e são derivados muito mais do crédito e da análise de crédito e não tem necessariamente a ver com estoque das montadoras ou com necessidade de venda, ou não”, avalia.

Para fazer uso de financiamento para adquirir o automóvel, o mais importante é conseguir a menor taxa de juros, como explica Marcos Sarmento Melo, diretor da Valorum Gestão Empresarial. “É preciso tomar cuidado, visto que muitas vezes as financeiras e bancos que emprestam o dinheiro para aquisição do veículo informam uma taxa de juros do empréstimo e insere uma grande quantidade de outros encargos a quem toma emprestado. Esses “penduricalhos” são: taxa de abertura de cadastro, seguro, IOF (que é obrigatório) e outros elementos que são inseridas na taxa informada ao cliente”, aconselha. 

Para se precaver, Melo recomenda aos cliente solicitar o Custo Efetivo Total (CET), que é a taxa que engloba todos os encargos, além da própria taxa de juros do empréstimo. Ele explica que esse é um direito do consumidor. A decisão de aquisição de um automóvel novo com um seminovo não dependerá então somente da taxa de juros. Esse é um outro aspecto a ser levado em conta. O comprador pagará pelo automóvel que escolher. Comparando-se um mesmo modelo, o automóvel novo será mais caro que um usado. A composição do financiamento será dada de acordo com o valor que se está tomando”, destaca, ainda, o especialista. 

*O repórter viajou a convite da Fenabrave

 

  • Google Discover Icon
postado em 09/09/2026 00:02
x