Política monetária

BC descarta risco de recessão em 2027, "apesar de alguma narrativa do mercado"

Apesar de reduzir projeções para o PIB e piorar as perspectivas de inflação, autoridade monetária reforça preocupação com cenário externo e deterioração das contas públicas, mas não acredita em recessão para o próximo ano

Galípolo evitou comentar sobre a política fiscal expansionista do governo federal neste ano eleitoral -  (crédito:  Ed Alves CB/DA Press)
Galípolo evitou comentar sobre a política fiscal expansionista do governo federal neste ano eleitoral - (crédito: Ed Alves CB/DA Press)

Apesar do discurso dos ministros da área econômica seguirem afirmando que o governo tem compromisso com o equilíbrio fiscal, o Banco Central sinalizou que tem andado mais preocupado com a deterioração das contas públicas, ao piorar as projeções para a inflação do próximo ano, mas descartou uma recessão no próximo ano.

“Apesar de alguma narrativa do mercado, não existe uma perspectiva de recessão significativa para o ano de 2027”, disse o diretor de Política Econômica do BC, Paulo Picchetti, nesta quinta-feira (24/9), diante da apresentação do Relatório de Política Monetária (RPM), que reduziu de 2% para 1,8% a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano e passou a prever alta de 1,4% do PIB de 2027.

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As projeções do BC continuam mais pessimistas do que as do Ministério da Fazenda, que, nesta semana, revisou de 2,3% para 2% a estimativa para o PIB deste ano, e reduziu de 2,5% para 2,3% a perspectiva de alta no PIB de 2027. No RPM divulgado hoje, a autoridade monetária ainda manteve as projeções de inflação deste ano, em 5,2%, e elevou de 3,7% para 3,9% a estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do ano que vem.

Durante a apresentação dos dados do RPM, o diretor do BC admitiu que o cenário externo continua preocupante, especialmente com as pressões inflacionárias provocadas pelo aumento do preço do petróleo em virtude do conflito no Oriente Médio. Ele ainda sinalizou que o BC segue preocupado com a deterioração das contas públicas.

Tanto Picchetti quanto o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, evitaram comentar sobre a política fiscal expansionista do governo neste ano eleitoral, e, muito menos, as recentes medidas de aumento de despesas anunciadas pelo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que vão impactar o Orçamento deste ano e do próximo, como o reajuste de 15% no Bolsa Família e a distribuição de canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS).

Durante a apresentação, ambos ressaltaram que a questão fiscal é um dos insumos das decisões da política monetária do Copom. “O descasamento relacionado à economia produz um deslocamento do que é o ciclo político e as decisões do Banco Central. E como nós consumimos o fiscal como insumo e da forma como ele impacta no nosso mandato”, afirmou o presidente do BC.

Picchetti, por sua vez, reconheceu que há deterioração do quadro fiscal pelo mercado, que projeta a dívida pública bruta acima de 100% do PIB nos próximos anos. “Não prevemos consolidação fiscal no horizonte relevante”, disse o diretor do BC. Ele também admitiu que o Copom tem sinalizado essa preocupação com a questão fiscal nas últimas reuniões do colegiado, reforçando sempre nas atas a necessidade de evitar aumentar o custo do ajuste da própria política monetária.

Na ata da última reunião do Comitê, o Banco Central ressaltou, inclusive, a necessidade de que as políticas fiscal e monetária sejam mais “harmoniosas”, especialmente em um cenário em que as pressões inflacionárias tendem a aumentar, em grande parte, devido aos impactos do fenômeno climático El Niño, que deverão ser mais fortes no próximo ano pelas projeções do próprio BC, que elevou de 3,8%. “A política fiscal tem um impacto de curto prazo, majoritariamente por meio de estímulo à demanda agregada, e uma dimensão mais estrutural, que tem potencial de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar o prêmio a termo da curva de juros”, informou o documento.

O BC ainda reforçou no texto que “uma política fiscal que atue de forma contracíclica e contribua para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta”. “O Comitê reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”, acrescentou.

 

Crise do Master e do BRB

Durante a entrevista aos jornalistas, o presidente do Banco Central também evitou comentar sobre a crise e a demora da divulgação do balanço do Banco de Brasília (BRB), assim como o fato de que analistas consideram que o banco regional já teria sido liquidado se fosse privado. Mas Galípolo reconheceu que a autoridade monetária quer evitar processos de liquidação precipitada, como vem respondendo junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) no caso do Banco Master, liquidado em novembro do ano passado.

“O Banco Central não comenta o caso de uma instituição individual e para todos esses processos existem critérios objetivos. É muito importante, pelo menos é o que eu penso, que queremos não é cometer atos voluntariosos para catapultar biografias, mas manter as instituições fortes, e que as decisões não extrapolam a competência (do BC) e não mudem a jurisprudência no meio do jogo ou de acordo com a conveniência”, afirmou Galípolo. Em tom de brincadeira para comentar sobre as críticas do mercado de que o BC demorou para liquidar o Master, e disse que "aprendeu a lidar com isso torcendo pelo Palmeiras", quando ouvia na "zona do amendoim" os torcedores xingarem os melhores jogadores do time verde e branco. 

Segundo ele, o BC vai continuar conduzindo uma posição bastante conservadora para evitar críticas ou mesmo processos posteriores. Ele reconheceu também que é preciso que a instituição tome medidas com muita cautela a fim de evitar processos internos e na Justiça ou mesmo destruição de reputações da instituição e até mesmo de funcionários. “Todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Essa é a ordem das coisas”, disse Galípolo, ao ser questionado sobre casos internos de governança e da notícia da Folha de São Paulo , publicada hoje revelando que o irmão de um servidor do BC Ricardo Harrys teria recebido dinheiro do Banco Master em 2025.

Galípolo também admitiu que já foi notificado pela Polícia Federal para prestar esclarecimentos do caso Master, mas disse que não lembra a data do depoimento, que deverá ocorrer “em outubro”.

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# Banco Central, RPM, PIB, inflação, caso Master, BRB

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postado em 24/09/2026 14:36 / atualizado em 24/09/2026 19:59
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