O programa de incentivo à instalação de data centers no Brasil, o Redata, precisa de ajustes para conciliar a atração de investimentos com objetivos ambientais e as condições do sistema elétrico. Para Wladimir Janousek, secretário de Indústria e Comércio do Instituto Nacional de Energia Limpa (Inel), a regulamentação deve garantir acesso efetivo a fontes renováveis e evitar que a previsão de fontes de "baixa emissão" abra espaço para o gás natural.
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Em entrevista ao Correio, ele também afirma que os data centers podem absorver energia excedente e reduzir os cortes na geração, conhecidos como curtailment, mas ressalta que isso exige investimentos em transmissão e armazenamento.
Como a regulamentação poderia garantir que os data centers beneficiados pelo programa tenham acesso efetivo a energia renovável?
A forma mais eficaz de garantir acesso real, contínuo e competitivo à energia renovável para os data centers habilitados pelo Redata é combinar mecanismos regulatórios de contratação, infraestrutura elétrica dedicada e monitoramento independente. O projeto de lei já estabelece a obrigação de atender à totalidade da demanda de energia elétrica por meio de contratos de fornecimento ou de autoprodução a partir de fontes renováveis ou de baixa emissão, mas não define como isso será viabilizado. A lei acerta ao exigir energia renovável, mas não garante que ela estará disponível. A regulamentação será o ponto decisivo para definir como essa exigência poderá ser cumprida na prática.
A previsão de fontes "renováveis ou de baixa emissão" abre espaço para o gás natural. Qual o impacto disso na transição energética brasileira?
A abertura para fontes renováveis ou de baixa emissão muda o sentido da exigência energética do Redata. Em vez de estabelecer uma obrigação de descarbonização, o texto passa a adotar como referência a intensidade de carbono, o que inclui o gás natural. É preciso fazer uma separação entre o uso estrutural e o uso estratégico do gás natural, considerando onde essa fonte deve ser preservada e onde as energias renováveis devem ser a principal opção para o fornecimento de energia.
Que critérios deveriam orientar a regulamentação para garantir contrapartidas ambientais claras?
O ponto central é impedir que baixa emissão se torne sinônimo de gás natural sem uma contrapartida ambiental efetiva. A lei abre essa possibilidade, mas a regulamentação precisa estabelecer critérios técnicos claros, mensuráveis e auditáveis. Também é necessário definir limites para a intensidade de carbono e restringir o uso de outras fontes fósseis que possam eventualmente ser enquadradas nessa categoria.
O Redata poderia reduzir o curtailment ao criar demanda para a energia excedente? Como isso funcionaria na prática?
O Redata poderia ser uma das ferramentas mais poderosas para enfrentar o curtailment no Brasil, mas isso não ocorrerá automaticamente. É preciso que a regulamentação conecte explicitamente os data centers à energia renovável excedente, criando mecanismos que transformem o desperdício atual em demanda produtiva. Essa integração pode ocorrer de diferentes formas, como por meio de contratos de compra de energia específicos para usinas que enfrentam curtailment, com cláusulas que incentivem o aproveitamento da energia excedente.
O que explica a transformação do curtailment em um problema estrutural do sistema elétrico brasileiro?
O curtailment se tornou um problema estrutural porque deixou de ser um fenômeno pontual, comum em sistemas elétricos em expansão, e passou a refletir um desajuste permanente entre onde e como a energia é gerada e onde e como ela pode ser consumida. Esse problema não decorre apenas do crescimento das fontes renováveis. Ele também é resultado de falhas de coordenação entre a localização dos empreendimentos, a capacidade de transmissão, a operação do sistema, o funcionamento do mercado e o planejamento do uso das diferentes fontes de geração.
Hoje, qual é o maior obstáculo aos cortes: transmissão, armazenamento ou baixa demanda?
Hoje, o maior obstáculo para reduzir o curtailment no Brasil é a infraestrutura de transmissão. É o principal ponto para o qual convergem os demais fatores. A transmissão é o gargalo que transforma um problema técnico em um problema estrutural. O armazenamento é uma solução estrutural de longo prazo, mas exige custos e escala compatíveis e, principalmente, uma regulamentação específica que organize os mercados, os modelos de remuneração e a tarifação. Do lado da demanda, o Redata pode ajudar a ampliar a capacidade de absorção da energia, com o uso da produção excedente por grandes consumidores flexíveis, como data centers e projetos de hidrogênio verde. No curto e médio prazo, o armazenamento é uma alternativa importante. A criação de demandas, por sua vez, é a solução que pode gerar resultados mais rapidamente.
O governo prevê um leilão de baterias em dezembro. Em que medida o armazenamento pode reduzir o curtailment no curto prazo?
O armazenamento pode reduzir parte do curtailment no curto prazo, mas não resolve o problema estrutural, ligado à falta de transmissão. O impacto do leilão de baterias previsto para dezembro dependerá de uma regulamentação adequada. Por isso, o Brasil precisa avançar simultaneamente em transmissão, flexibilidade da demanda e armazenamento.
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