Podcast do Correio

Gestão a partir de evidências

Economista Eduardo Alencar defende o fim da "governança por intuição" na máquina pública. Ele lança um livro sobre o tema

O Estado brasileiro acumula grande quantidade de dados, mas tem dificuldade em dar um tratamento a esse volume de informação para formular políticas públicas. Essa é a visão do economista Eduardo Alencar, doutor pela Universidade da Califórnia e servidor público federal, convidado do Podcast do Correio.


"O que pude identificar, ao longo da minha trajetória pública e de pesquisa, é a dificuldade existente em analisar essas informações e transformá-las em uma melhor tomada de decisão pública", relatou aos jornalistas Roberto Fonseca e Raphaela Peixoto. 


Alencar escreveu um livro sobre o tema. Governança em tempo real: como o Brasil pode parar de fingir que governa será lançado no dia 22, às 19h, na livraria Leitura do Terraço Shopping.


Na publicação, o autor sustenta que é preciso abandonar a chamada "governança por intuição" — na qual a informação não está tão estruturada ou não chega ao topo decisório — e adotar uma "governança baseada em evidências", na qual se tem uma capacidade melhor de analisar dados e informações, fazendo-as circular por todas as instâncias até chegar à devida tomada de decisão. 


"Essa falha dentro da máquina pública acaba comprometendo a entrega de resultados lá na ponta, não correspondendo ao que a sociedade espera", destacou o economista durante o podcast. 


Para Alencar, falhas de governança são um problema estrutural, que perpassa diferentes gestões. "Minha experiência e conhecimento são profundos em relação ao Executivo Federal, mas em interações com os níveis estadual e municipal, a situação é ainda mais crítica", observou. "Se temos realidades diversas e dificuldades no nível federal, nos estados, as diferenças e as dificuldades são maiores; e na granularidade do município, a limitação de pessoal e recursos tornam o desafio ainda superior", ressaltou. 


Estímulo


De acordo com o economista, o gargalo da burocracia brasileira é tratar os dados e transformar as informações reunidas em decisões. Segundo o entrevistado, como a mudança de cultura é um processo de médio e longo prazos, é necessário estimulá-la nos níveis federal, estadual e municipal. 


"Devemos considerar quatro grandes fatores. Os três primeiros são: prevenção, detecção e punição. O quarto componente — o aprendizado — é o mais carente. É preciso aprender e internalizar as lições a partir do ciclo de ações integradas, estruturando uma 'gramática institucional' que permita o processo de aprendizagem", frisou. 


Eduardo Alencar citou exemplos. Enfatizou que o Banco Master seria uma instituição bancária de segunda ou terceira linha, mas, ainda assim, causou um impacto enorme no sistema financeiro. De acordo com ele, frequentemente as instituições negligenciam os "sinais fracos" — indicadores de auditoria que, isoladamente, parecem irrelevantes, mas que, analisados conjuntamente de forma sistêmica, revelam riscos significativos. 


"O maior desafio diante desses escândalos é a maturidade institucional de fazer uma autocrítica. Vinculo isso também à cultura do 'checklistismo', em que se preenchem os requisitos burocráticos para manter os indicadores 'verdes', o que, na verdade, constitui um grande sinal de alerta", afirmou.


Potencial da IA


De acordo com o especialista, a inteligência artificial pode ser uma ferramenta útil, porém o mais relevante é a precisão do resultado. "A IA proporciona ganho de escala na análise de grandes volumes de documentos. No entanto, a responsabilidade final pela decisão permanece do servidor público ou auditor; não se pode delegar a tomada de decisão à máquina. A IA e os chatbots devem auxiliar o trabalho, mas não executá-lo sozinhos", ressaltou.


O escritor defende limites e regramentos da IA para evitar o desestímulo ao aprendizado e à reprodução da "cultura do checklist". De acordo com ele, a administração pública vem aprofundando essa discussão para estabelecer parâmetros claros e transparentes.


"É uma abordagem perigosa que não deve prosperar. Ferramentas tecnológicas facilitam a gestão, mas a responsabilidade decisória é sempre humana ou de instâncias colegiadas. Além disso, a IA não cria nada do zero; ela opera sobre bases de dados existentes, enquanto a criação genuína é humana", comparou.


Alencar comentou ainda sobre a segurança da informação. Segundo ele, o armazenamento de dados confidenciais exige uma discussão ampla e interdisciplinar, com a participação de técnicos, especialistas, o Poder Executivo e o Congresso Nacional — abrangendo direito, tecnologia, administração, economia e psicologia. 


"Devemos estar em permanente estado de vigilância. Isso envolve desde hábitos básicos de segurança no trabalho — como bloquear o computador ao se ausentar, verificar a procedência de dispositivos e ajustar configurações de privacidade — até o desenvolvimento do 'letramento digital', garantindo o uso consciente da tecnologia com segurança e privacidade", detalhou. 


Estagiário sob a supervisão de Carlos Alexandre de Souza


 



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