Apesar das oscilações do mercado internacional e dos desafios impostos pelo fenômeno climático El Niño, o abastecimento de alimentos no Brasil caminha para um período de estabilidade com previsão de nova safra recorde. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta que a safra de grãos 2026/2027 atingirá 367 milhões de toneladas, acumulando o terceiro ano consecutivo de máxima histórica na produção nacional.
Em entrevista ao Correio, o diretor de Operações e Abastecimento da Conab, Arnoldo de Campos, avalia a execução dos recursos do Plano Safra e detalha as estratégias de mitigação do endividamento rural. Ele destaca que o país se prepara para assumir a liderança isolada como o maior exportador global de alimentos, superando os Estados Unidos. "O Brasil desfruta de uma posição comercial privilegiada por não estar subordinado a nenhuma potência", afirma. Confira os principais trechos da entrevista:
Como está a expectativa para a execução dos recursos do Plano Safra 2026/2027 ante os desafios de endividamento que o setor enfrenta?
Toda a engrenagem do Plano Safra está montada e em andamento junto à rede de bancos públicos e privados, viabilizando os fundos de equalização para garantir taxas de juros mais baixas. A expectativa é alcançar um volume recorde de contratações tanto para a agricultura empresarial quanto para a agricultura familiar. Existe um desafio real de endividamento dos produtores, decorrente da queda de preços nos mercados internacionais e da elevação dos custos com combustíveis e fertilizantes, um cenário pressionado por conflitos no Irã e pelas disputas tarifárias entre Estados Unidos e China. Contudo, as medidas conjuntas de renegociação, como o Desenrola Rural para pequenos agricultores e a repactuação de dívidas para grandes e médios produtores, estão restaurando a capacidade de financiamento e de tomada de crédito para o custeio da lavoura.
Existe risco de desabastecimento ou disparada de preços dos alimentos em 2027 em razão de fatores climáticos, como o El Niño?
Os indicadores sinalizam uma oferta perfeitamente compatível com a demanda e tendência de estabilidade nos preços dos alimentos em 2027, mantendo o ambiente de menor inflação acumulada no setor. O monitoramento do El Niño exige atenção quanto ao volume de chuvas previsto para novembro na Região Sul, período sensível ao desenvolvimento das lavouras. A grande mudança de patamar na gestão atual foi a reconstrução preventiva dos estoques públicos de grãos. A Conab formou uma reserva estratégica de 320 mil toneladas de arroz, o equivalente a 320 milhões de quilos, ou mais de 1,5kg por habitante do país. Essa reserva garante ao governo poder de intervenção imediata para abastecer o mercado e neutralizar altas injustificadas, evitando os problemas ocorridos durante as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, quando o país estava sem estoques estatais.
Apesar do cenário internacional adverso, a Conab projeta mais um recorde de produção. O que sustenta esse resultado?
A engrenagem produtiva brasileira continua rodando. A safra de grãos 2025/2026 foi a maior da história, e as projeções da Conab indicam que a safra 2026/2027 chegará a 367 milhões de toneladas, marcando o terceiro recorde consecutivo. Isso ocorre porque o mercado interno segue dinâmico e o mercado externo continua comprando em volumes elevados. O agro brasileiro é visto globalmente como um setor de alta liquidez e forte demanda.
Quais perfis de produtores encontram maior dificuldade de acesso ao crédito e de liquidez na atual conjuntura?
Na agricultura familiar, acompanhada em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), registram-se as menores taxas de inadimplência do mercado e uma elevada adesão às renegociações. O segmento conta com juros altamente subsidiados no Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura) com taxas para investimento variando entre 1% e 5% ao ano, e custeio entre 4% e 5% ao ano, valores muito inferiores aos juros praticados no mercado comercial. O desafio mais acentuado, hoje, recai sobre o médio produtor, em especial aquele que opera em terras arrendadas cultivando soja e algodão. Esse perfil teve a margem de lucro bastante comprimida pelo descompasso entre custo e preço final. O Pronaf registra uma expansão muito consistente em regiões que antes tinham acesso limitado, impulsionado pela atuação estratégica do Banco da Amazônia (Basa), no Norte, do Banco do Nordeste (BNB), no Nordeste, e do Banco do Brasil (BB) em todo o país. O avanço esbarra, contudo, em entraves burocráticos.
Como o Brasil tem se posicionado diante da disputa comercial entre grandes potências e das tarifas externas?
A engrenagem produtiva nacional demonstrou enorme capacidade de reação. A safra de grãos 2025/2026 já havia estabelecido o maior volume da história, superando o ciclo anterior, e as projeções da Conab indicam que a Safra 2026/2027 alcançará 367 milhões de toneladas, cravando o terceiro recorde consecutivo. Isso é sustentado por duas forças: um mercado interno altamente dinâmico e compradores internacionais que continuam demandando volumes crescentes do Brasil. O agro brasileiro é reconhecido globalmente por sua alta liquidez e liquidação certa. Um exemplo dessa capacidade de resposta é o arroz: com a recuperação dos preços, a área plantada superou significativamente a média dos últimos anos. O Brasil desfruta de uma posição comercial privilegiada por não estar subordinado a nenhuma potência, mantendo diálogo fluido com Estados Unidos, China, União Europeia, Japão e nações asiáticas como o Vietnã. Inicialmente, o "tarifaço" do governo Donald Trump atingiu o setor. Porém, a sobretaxa gerou inflação direta nos preços dos alimentos, provocando desgaste político ao governo norte-americano. Como resultado, recuaram e retiraram das listas itens vitais para o agro, como carnes, suco de laranja, café e frutas. O Brasil ainda beneficiou-se da disputa entre Washington e Pequim ao ocupar o espaço deixado pelos concorrentes no mercado chinês. Até o fim do ano, o Brasil consolidará a posição de maior exportador mundial de alimentos, superando, definitivamente, os Estados Unidos.
