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IA ameaça modelo que sustenta a internet e derruba ações de big techs

Tombo no valor de mercado de diferentes plataformas do Vale do Silício revela perda de acessos que vinham do Google, enquanto gastos bilionários com IA preocupam investidores

Gemini, a IA da Google -  (crédito: Google/Reprodução )
Gemini, a IA da Google - (crédito: Google/Reprodução )

Durante décadas, sites produziam conteúdo, buscadores levavam visitantes até eles e as páginas faturavam com anúncios ou assinaturas. A inteligência artificial (IA), que entrega respostas prontas em lugar de listas de links, ameaça esse modelo, segundo especialistas ouvidos pelo Correio. Nesta sexta-feira (30/10), essa mudança radical no modelo que sustenta a internet ajudou a provocar uma grande queda no valor de mercado de gigantes da tecnologia.

A redução do tráfego ocorre quando as próprias gigantes de tecnologia enfrentam dúvidas sobre o custo de desenvolver IA. Alphabet, dona do Google, Amazon, Meta e Microsoft perderam juntas quase US$ 900 bilhões em valor de mercado após seus balanços do terceiro trimestre, segundo levantamento do Financial Times.

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A Alphabet sofreu queda de 12,64% na quinta-feira (29/10), a maior desde sua estreia na bolsa, em 2004, apagando perto de US$ 500 bilhões de valor de mercado.


Para o gestor de investimentos internacionais da Armada Asset, André Dalmaschio, a reação não significa necessariamente que os negócios estejam indo mal. “A queda tem mais a ver com o tamanho da conta da inteligência artificial do que com resultados ruins. Amazon, Alphabet, Microsoft e Meta investiram mais de US$ 200 bilhões só no terceiro trimestre, e a projeção para o ano chega a cerca de US$ 735 bilhões”.

A Alphabet, por exemplo, faturou US$ 127,6 bilhões no trimestre, alta de 25%, mas a publicidade em buscas “decepcionou”. Segundo reportagem da BBC News, o diretor comercial Philipp Schindler reconheceu que o Modo IA rende menos em anúncios que a busca convencional, embora tenha dito estar “muito bem com a trajetória da empresa”.

Também à BBC, Kim Scott, ex-diretora de publicidade do Google, afirmou que a companhia “prefere prejudicar a si mesma a permitir que outros a prejudiquem”, numa aposta de longo prazo.

“O maior risco é que a própria inovação substitua parte da atividade que historicamente financiou essas empresas. O mecanismo tradicional de busca era relativamente simples: o usuário fazia uma pergunta, recebia links, acessava páginas e encontrava anúncios. Quando a inteligência artificial entrega a resposta diretamente, parte desse percurso deixa de acontecer. Isso altera o valor econômico do clique, o volume de visitas e a capacidade de monetização de toda a cadeia”, explica a economista-chefe da Silo Multi Family Office, Tatiana Goes.

Outra plataforma que sofreu a maior queda diária em suas ações foi o Reddit, um dos maiores fóruns online, dividido em milhares de comunidades. As ações da rede social recuaram 29,2%, a US$ 91,73, depois que a companhia alertou para a redução dos acessos provenientes de mecanismos de busca. “O Modo IA não gera tráfego. Nem para nós, nem para ninguém, até onde sei. Antes, [o Google] direcionava tráfego. Agora, não mais”, afirmou o presidente-executivo Steve Huffman, em teleconferência com analistas na quinta-feira (29).

O Reddit informou perda média de mais de 1 milhão de acessos semanais vindos de buscas em outubro. Huffman apontou o AI Overviews, que apresenta resumos automáticos, e o Modo IA, que responde em formato de conversa, como principais suspeitos. Citou também possível piora na posição de conteúdos traduzidos automaticamente.

Para o economista Jadson Xavier, a inteligência artificial representa um risco estrutural ao modelo de negócios artual das empresas, que enfrentam um "caso 'dilema do inovador'". "A empresa é obrigada a investir na tecnologia que ameaça sua própria fonte de receita, porque se não o fizer, um concorrente o fará por ela. O risco financeiro não é a IA em si, é a velocidade da transição", afirma o economista da Paribu Finanças. 

Jornalismo sob pressão

No Brasil, o assunto chegou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) com um estudo da consultoria Authoritas. Enviado ao órgão em novembro de 2025 por organizações da sociedade civil, estima-se uma redução de pelo menos 20,6% no tráfego destinado a sites jornalísticos por causa dos resumos de IA do Google.

Segundo o levantamento, divulgado pela Folha de S.Paulo, a taxa de cliques no primeiro resultado passou de 21,4% para 8,93% depois da introdução. Foram analisadas cerca de 5.000 expressões ligadas a notícias. Menos visitas podem reduzir a receita publicitária e dificultar a conquista de assinantes. O estudo alerta ainda que esse processo pode levar a cortes nas redações, comprometendo a diversidade de informações disponíveis ao público.

Goes alerta para o risco de manter os custos de reportagem sem receber a audiência que ajuda a financiá-los. “Jornais, portais e blogs estão entre os setores mais vulneráveis. Se a resposta produzida pela IA utiliza informações publicadas por veículos jornalísticos, mas não gera uma visita à página original, o produtor de conteúdo pode perder audiência e receita publicitária, mesmo continuando a arcar com os custos de apuração. Isso ameaça especialmente veículos menores e independentes”, afirma a economista.

“Tendem a ganhar os donos da infraestrutura e quem controla a resposta. Também ganham as plataformas com audiência própria ou com dados valiosos para licenciar aos modelos de IA”, complementa Dalmaschio.

Em abril, o tribunal do Cade recomendou aprofundar a investigação sobre o uso de conteúdo jornalístico pelo Google, inclusive em respostas de IA, para apurar eventual abuso de posição dominante. Não houve condenação.

O Google contesta a ideia de perda generalizada de tráfego. Em publicação de agosto de 2025, Liz Reid, responsável pela Busca, disse que os cliques orgânicos enviados a sites permaneciam “relativamente estáveis” e que os acessos considerados de maior qualidade aumentaram. Reconheceu, porém, que alguns sites ganham visitas enquanto outros perdem.


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postado em 31/10/2026 14:01 / atualizado em 31/10/2026 14:04
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