
Em meio ao temor da intervenção dos Estados Unidos no processo eleitoral e das declarações de Donald Trump de que acompanharia com atenção a votação no Brasil, o Correio entrevistou quatro brasilianistas. Os especialistas em política brasileira avaliaram como a Casa Branca vê a eleição e o impacto da vantagem de Flávio Bolsonaro, o candidato preferido de Washington, sobre Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno. Também como um eventual triunfo bolsonarista vai ajudar o projeto hegemônico dos EUA e da extrema-direita na América do Sul.
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Anthony W. Pereira, diretor executivo do Centro Stone para Estudos Latino-Americanos da Universidade Tulane (em Nova Orleans, Louisiana), lembrou que os dois maiores países da América Latina que não fazem parte do chamado "Escudo das Américas" são México e Brasil. "A iniciativa é importante porque, ao aderirem a ele, os países reconhecem implicitamente o corolário Trump à Doutrina Monroe e o direito dos EUA de exercer supremacia nas Américas. Isso inclui o uso unilateral de suas forças militares contra inimigos percebidos, a obtenção de acesso a recursos considerados vitais para a sua segurança nacional — estejam esses minerais em seu território ou no de terceiros — e a violação do direito internacional em prol dos próprios interesses", explicou.
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"O Brasil representa um prêmio potencialmente conquistável para a administração Trump, que adoraria receber Flávio como o novo presidente do país. Isso completaria uma série notável de eleições que levaram ao poder presidentes de direita e pró-Trump na Argentina, no Chile, no Peru, no Equador, na Colômbia, no Paraguai, em El Salvador e em Honduras", admitiu Pereira. De acordo com ele, as eleições nos oito países latino-americanos fazem com que a política de Trump de apoiar candidatos da direita pareça bem-sucedida, ao contrário do que ocorre na Europa, onde a impopularidade do americano fez com que essa iniciativa fracassasse — principalmente na Hungria, com a derrota de Viktor Orbán.
Professora de história da Universidade de Nova York, Barbara Weinstein explicou que, no caso de vitória de Flávio, a Casa Branca e o Planalto firmariam um acordo mais favorável a Washington no que diz respeito às tarifas. "Trump esperaria que uma presidência 'Bolsonaro 2.0' apoiasse quaisquer ações que os EUA adotassem internacionalmente (por exemplo, contra o Irã ou a favor de Israel) e oferecesse apoio estratégico de que os EUA pudessem necessitar. Isso comprometeria a soberania do Brasil, mas tenho certeza de que Flávio teria prazer em atender a esses pedidos; assim, Trump não precisaria exercer muita pressão para alcançar seus objetivos", disse. No entanto, Weinstein defende que persiste a realidade de que a China — e não os EUA — é, de longe, o principal parceiro comercial do Brasil.
Endosso
Para James Naylor Green, historiador político da Universidade Brown (em Rhode Island), existe uma grande probabilidade de Trump endossar publicamente Flávio antes de 25 de outubro. Caso haja uma vitória de Lula no segundo turno, com menos de um por cento de diferença, tanto Trump quanto Flávio não reconhecerão os resultados. "O Partido Liberal (PL) mobilizará suas forças da extrema-direita na América Latina e na Europa para apoiar a campanha de contestação da apuração." Green avaliou que Trump está muito preocupado com a possibilidade de Lula ganhar as eleições. "Não sei se Trump dará um discurso sobre a eleição, mas ele buscará reforçar o nome de Flávio até o segundo turno. Se o filho de Jair Bolsonaro ganhar, será Trump no Brasil e o fim dos programas sociais. Veremos um retrocesso de décadas para o país. O Brasil é uma linha de defesa contra a estratégia da Casa Branca de dominar a América Latina com sua política neoliberal e corrupta."
De acordo com Andre Pagliarini, professor de história e estudos internacionais na Universidade Estadual de Louisiana, o que está em jogo para Trump é uma questão de reputação. "Ele quer a vitória de alguém que o aprecie e lhe seja simpático, porque isso reflete positivamente em sua posição política. Não se pode subestimar as motivações mais mesquinhas de Trump por trás de qualquer ação."
Ele acrescentou que o fato de candidatos da extrema-direita ao Legislativo terem superado todas as expectativas sugere que o projeto bolsonarista possui um enraizamento popular mais profundo do que muitos analistas políticos previam. "Isso ajuda a explicar como Flávio Bolsonaro resistiu a uma sucessão interminável de escândalos. Evidentemente, milhões de brasileiros sentem, neste momento, que a direita é o que melhor reflete seus valores e sua visão de futuro", disse Pagliarini.
O estudioso acredita que, em uma perspectiva mais ampla, um governo favorável em Brasília fortaleceria o projeto de Trump para uma ordem global reformulada, alicerçada na hostlidade a instituições multilaterais, em políticas sociais profundamente reacionárias, no militarismo e na promoção de interesses próprios sob o pretexto de combater a corrupção institucional. "Flávio Bolsonaro também estaria, quase que certamente, mais disposto a atender às exigências dos EUA por condições comerciais favoráveis — algo a que o governo Lula tem resistido em prol de uma pauta comercial internacional mais equilibrada", concluiu Pagliarini.
EU ACHO...
"Esta eleição significa muito para Trump, e poderia até servir de modelo para uma futura presidência com Donald Trump Jr. Mais seriamente, Trump prejudicou as relações dos EUA com muitos aliados de longa data, como Otan e Canadá. Consolidar poder nas Américas pode ser agora mais importante para ele do que no passado (quando, a meu ver, ele não se importava muito com a América Latina)."
BARBARA WEINSTEIN, professora de história da Universidade de Nova York
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