ENTREVISTA

A futura nova praia de Emanuel Rego, o multicampeão das areias

Medalhista de ouro do vôlei de praia Atenas-2004 é o indicado a diretor-geral do COB. Gabaritado com mais de 150 títulos, ele vê sucesso na gestão colaborativa e gostaria de ver o esporte olímpico mais próximo ao povo

Emanuel se aposentou como único atleta do vôlei de praia a participar de cinco Olimpíadas: subiu ao pódio em Atenas-2004 (ouro); Pequim-2008 (bronze); e Londres-2012 (prata) -  (crédito: MPC Rio/Divulgação)
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Emanuel se aposentou como único atleta do vôlei de praia a participar de cinco Olimpíadas: subiu ao pódio em Atenas-2004 (ouro); Pequim-2008 (bronze); e Londres-2012 (prata) - (crédito: MPC Rio/Divulgação)

Rio de Janeiro — O Brasil alcançou a marca de 170 conquistas em Olimpíadas entre a primeira participação, na Antuérpia-1920, e a mais recente, em Paris-2024. Pouco ou muito, existe um planejamento estratégico para cada pódio. A responsabilidade é do Comitê Olímpico do Brasil (COB). A entidade 110 anos é a responsável por manter em operação a fábrica de medalhas. Daqui a duas semanas, a plaquinha subirá na troca de comando: sairá o atual presidente, Paulo Wanderley Teixeira, e entrará o eleito Marco Antônio La Porta. A chegada do dirigente oriundo do triatlo resultará em mudanças significativas. Uma das mais importantes é a entrega da caneta de diretor-geral para Emanuel Rego.

Embora tenha de passar pelo crivo do Conselho de Administração do COB em 15 de janeiro, é praticamente certo que Emanuel fará da função a nova praia. Campeão olímpico das areias do vôlei em Atenas-2004, bronze em Pequim-2008 e prata em Londres-2012, ele reforça a preferência da entidade por ex-atletas gabaritados. O antecessor dele foi Rogério Sampaio, medalhista de ouro do judô em Barcelona-1992.

O paranaense de Curitiba é brasiliense por afinidade. O ex-atleta é casado há 16 anos com a medalhista de bronze com a Seleção feminina de vôlei em Atlanta-1996 e Sydney-2000, a senadora Leila Barros (PDT-DF). Por essa e outras, tem gosto e interesse pela gestão. Nos tempos de quadra, foi presidente da Comissão de Atletas do COB entre 2013 e 2017 e membro da Comissão de Atletas da Federação Internacional (FIVB), de 2016 a 2019.

Emanuel também foi Secretário Nacional da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (2019) e Secretário Nacional de Esportes de Alto Rendimento (2019 a 2020) no governo de Jair Bolsonaro. Durante a gestão do ex-presidente, foi o responsável por projetos importantes, com o Bolsa Família. Deixou o cargo cinco dias depois de Leila Barros criticar o então ministro da Educação, Abraham Weintraub. Antes de ser indicado ao cargo no COB, o herói olímpico era voluntário na área de educação nas escolas municipais de Curitiba e embaixador do Esporte do Comitê Brasileiro de Clubes.

Prestes a assumir um dos papéis mais importantes dos bastidores do esporte do Brasil, ele vê a gestão como função colaborativa e reflete sobre como alcançar mais pessoas para estarem mais presentes nos esportes olímpicos e levá-los às casas do país. O sucesso de Duda/Ana Patrícia com o ouro em Paris-2024 e a evolução dos países nórdicos no vôlei de praia também estão entre os tópicos abordados pelo dirigente.

Qual é o tamanho do próximo desafio?

Acredito que o Marco La Porta e a Yane Marques tiveram uma presença muito importante nesse próximo capítulo. Na realidade, o esporte olímpico vem consolidando vários resultados. As mulheres estão demonstrando que não é só as áreas esportivas, mas na governança também. O exemplo feminino demonstra o que foi trabalho, que o COB valorizou isso nos últimos anos. É nisso que temos de pensar: em como alcançar mais pessoas para estarem presente no esporte. Essa é uma das missões mais difíceis, fazer com que todo o esporte olímpico seja parte da casa das pessoas.

Como tornar o esporte olímpico permanente e não apenas com engajamento durante os Jogos?

A vida de atleta é de ciclos e ciclos e o inicial é quando começa a preparação para as Olimpíadas. Os nossos grandes clientes são as Confederações, elas têm a preocupação de criar o desenvolvimento do esporte. Com a condição de sempre estar perto das Confederações, eles desenvolvem e os atletas têm condição de chegar. As Confederações que estão chegando às Olimpíadas mais preparadas, como skate e taekwondo, demonstram que se for feito desenvolvimento e bons projetos, dá para ajudar todas as modalidades.

O que faria de diferente do Rogério Sampaio?

A minha tranquilidade é para dizer o seguinte: o trabalho a gente faz quando estamos dentro e conhecemos o que está acontecendo. Isso realmente só vai acontecer em janeiro. Houve bons trabalhos, acontece, e temos de dar continuidade. Ainda sou uma indicação, meu cargo tem todo um rito. Precisamos estar lá dentro para tentar entender como pode contribuir da melhor forma.

É a missão mais desafiadora?

A melhor parte é entender as fases do esporte. Quando eu era atleta, tinha outra missão, com time, embaixador do esporte. A missão de gestão depende dos outros, é um trabalho colaborativo, não posso dizer que vou fazer tudo, temos que continuar fazendo essa colaboração.

O que dizer sobre o vôlei de praia do Brasil em Paris-2024?

O vôlei de praia foi um sucesso. Foi uma participação que deixou todos muito felizes. Gostei muito de ver uma equipe que ficou quatro anos juntas, é disso que o vôlei de praia precisa. É preciso consolidar, duplas fortes se constroem, no mínimo, com três anos juntos. O momento dos europeus é muito forte, assim teve época em que os americanos estavam na frente, depois os brasileiros. É um ciclo no qual temos de voltar a competir bem a nível internacional.

Estamos testemunhando a evolução dos países nórdicos, naturalmente gelados e quase sem praias aptas para o esporte. O que explica isso?

Acredito na globalização. Todo mundo aprende Esses países nórdicos levaram muitos treinadores brasileiros para fomentar o trabalho. É uma coisa que acontece. Você vê o trabalho do Jesus (Morlán), um técnico espanhol que veio para o Brasil e fez um trabalho gigante com o Isaquias, rendendo frutos até hoje. Essa troca de experiência é muito importante. Os europeus estão fazendo e, infelizmente, no vôlei de praia, nos deixando um pouco para trás, mas acho que tem como chegar.

O seu esporte mudou?

O vôlei de praia ficou mais moderno, evoluiu muito e ficou mais rápido. Nós, brasileiros, e americanos, tínhamos jogo mais lento, cadenciado e estratégico. Agora, é um momento de criatividade, esse é o diferencial. As equipes que conseguem jogar com criatividade jogos mais rápido, não dando chances para o adversário, estão vencendo. Neste momento, são os europeus e Duda/Ana Patrícia.

*O repórter viajou a convite do Comitê Olímpico do Brasil (COB)

Victor Parrini
postado em 04/01/2025 06:00