
O Corinthians está eternamente dentro do coração de Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha. O Anjo das Pernas tortas também teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo. Não é heresia com a história de 245 gols em 612 jogos pelo Botafogo, além dos títulos de tricampeão carioca e bi do Torneio Rio-São Paulo. O lendário jogador, nascido em 1933 e morto em 1983, tem relação com os dois clubes mais populares do Brasil. Nasceu rubro-negro e aprendeu a gostar do alvinegro de São Paulo nos últimos anos de carreira. Se estivesse vivo, entraria na estatística dos 33% de brasileiros que torcem para o carioca ou para o paulista. Por isso, neste domingo (1º/2), às 16h, terá um tributo com o clássico entre as duas maiores torcidas na Supercopa Rei, em um palco à altura, o segundo maior do país e batizado em homenagem a ele.
A relação de Garrincha com o Flamengo não começou exatamente em 21 de setembro de 1968, quando o atleta chegou ao clube da Gávea, após a passagem pelo rival de hoje na Supercopa. A data aparece no livro Estrela Solitária, de Ruy Castro. O sentimento era mais visceral e nasceu no local mais pulsante dos estádios: as arquibancadas. Apesar da história ligada ao Botafogo, relatos apontam: o coração do Anjo das Pernas Tortas pulsava nas cores vermelho e preto. Na infância, o atleta frequentava o Estádio do Maracanã. “Flamengo de coração e desde garotinho, só hoje tive o prazer de vestir a camisa rubro-negra e foi uma emoção quando entrei aplaudido pela grande torcida”, declarou, após a estreia contra o Vasco, ao jornal O Globo.
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A passagem de Garrincha no elenco flamenguista foi relâmpago. Os registros datilografados do clube carioca apontam 19 apresentações, sendo 14 delas amistosos, e quatro gols marcados. A última ocorreu em 12 de abril de 1969. Garrincha jogou 11 minutos na vitória por 1 x 0 sobre o Campo Grande, na Gávea. A atuação antecedeu uma das maiores tragédias vividas pelo atleta. No dia seguinte, o Anjo das Pernas Tortas voltava dirigindo da terra natal Pau Grande, quando bateu em um caminhão. O acidente tirou a vida de dona Rosária, mãe de Elza Soares. Ele nunca mais voltou ao clube para seguir o sonho de usar rubro-negro.
Mané negou ter bebido antes de assumir a direção do carro. O choque provocou uma cicatriz, levada pelo atleta até o fim da vida, e encerrou de maneira triste e melancólica a passagem pelo clube do coração. “Todos os jogadores ficaram tristes. Todo mundo gostava muito dele. Uma pessoa pura. Fizemos de tudo, mas não teve jeito. Depois disso, caiu de vez”, contou Paulo Henrique, companheiro de time e amigo pessoal do craque, em entrevista ao ge.globo.
Anos antes, em 1966, o craque vestiu a camisa corintiana em 13 partidas, com cinco vitórias, dois empates e seis derrotas. Foi titular em todas da curta passagem e marcou dois gols. O primeiro, contra o Cruzeiro, no Mineirão, em amistoso vencido por 1 x 2. O outro, em cima do rival São Paulo, veio no triunfo de 2 x 0 pelo Torneio Rio-São Paulo, no Pacaembu. A chegada do Anjo das Pernas Tortas foi bancada pelo então presidente Wadih Helou. Incomodado com o jejum de 12 anos sem erguer o troféu do Paulista, estava convencido de que contratação de peso poderia mudar o cenário.
Garrincha estava em decadência física e tinha problemas com álcool. Mas Mané é Mané. O interesse era tão grande que o Corinthians enviou o preparador físico José Teixeira ao Rio de Janeiro para passar um dia analisando o craque. Com o aval do treinador Oswaldo Brandão, foi contratado. O técnico e o craque tinham excelente relação. Porém, ao retornar a Copa de 1966 na Inglaterra, foi informado da mudança no comando: saiu Brandão e entrou o argentino Filipo Núñez. O clima não era nada bom e influenciou em campo, com queixas de que os companheiros evitavam passar a bola para o Anjo.
“Sou corintiano. Gosto do Corinthians. Tive a felicidade de jogar lá, mas não tive a felicidade de jogar até o fim do contrato. Infelizmente, existiu uma pessoa na minha vida que não me deixou continuar. Enquanto eu estava com o Brandão, tudo bem”, abriu o jogo, em entrevista ao programa Vox Populi, da TV Cultura, em 1978.
O capítulo termina em novembro de 1966. O Corinthians enfrentaria o Prudentina, e Garrincha não estava sequer relacionado. Foi chamado às pressas para ser titular e colaborou na vitória por 1 x 0, com gol de Édson Cegonha. O resto é lembrança.
Seis décadas depois, é a vez de duas das paixões do Mané ficarem frente a frente no estádio batizado em homenagem a ele para definir o supercampeão do país. De um lado, o Flamengo, dono do troféu do Brasileirão. Do outro, o Corinthians, vencedor da Copa do Brasil.
O rubro-negro se habituou a desfilar na capital federal e vai completar o 75º jogo no Mané Garrincha, palco onde já levantou duas taças da Supercopa, em 2020 e 2021 — e onde foi derrotado pelo Palmeiras em 2023. O alvinegro também ostenta história no Planalto Central. Campeão da Copa do Brasil de 2002 no Serejão contra o Brasiliense, o clube ainda está marcado por fazer o primeiro gol na praça que viria a se tornar a principal da capital federal, com Vaguinho, no triunfo por 2 x 1 sobre o Ceub no Brasileirão de 1974.
Volta ao tempo
Histórias à parte, seja com Garrincha ou com o Distrito Federal, Flamengo e Corinthians decidem hoje quem fica com o primeiro troféu da temporada, assim como fizeram em 1991, na segunda edição do torneio. Daquela vez, os papéis eram invertidos. O carioca era o atual campeão da Copa do Brasil e o paulista do Brasileirão.
Quem estava lá era Zinho, tetracampeão mundial pelo Brasil e atacante rubro-negro na época. No entanto, assumiu não ter muitas memórias da partida, vencida pelo alvinegro por 1 x 0.
“Não lembro muita coisa do jogo. Foi a segunda Supercopa, então não era um jogo de tanto apelo nacional. Foi no Morumbi, com gol do Neto. O estádio estava um pouco vazio. Detalhes eu não lembro, mas eram ótimos times. Essa decisão de hoje é diferente. A competição ganhou muita força, o título vale bastante, diferente daquela época. Os dois estrearam perdendo no Brasileirão, então a pressão é maior e a importância que está se dando ao jogo é enorme, merecidamente. Vai ser uma grande partida”, opinou o ex-jogador.
Ficha técnica
Flamengo x Corinthians
Supercopa do Brasil (jogo único)
Local: Estádio Mané Garrincha, Brasília
Quando: Domingo (1º/2), às 16h
Transmissão: Globo, SporTV e GETV
Arbitragem: Rafael Rodrigo Klein (RS)
Prováveis escalações
Flamengo — Rossi; Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Pulgar, Jorginho e Arrascaeta; Carrascal, Cebolinha e Pedro. Técnico: Filipe Luís
Corinthians — Hugo Souza; Matheuzinho, André Ramalho, Gustavo Henrique e Bidu; Raniele, André e Carrillo; Breno Bidon, Memphis e Yuri Alberto. Técnico: Dorival Júnior

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