Futebol

Brasil chega à Copa sem um camisa 10 genial

No quinto episódio da série sobre o ciclo da Seleção Brasileira, Correio mergulha na ausência de um armador típico e absoluto. Carlo Ancelotti deve apostar em versatilidade e adaptação de funções para preencher vazio

Ancelotti Campinho MEIAS -  (crédito: Valdo Virgo)
Ancelotti Campinho MEIAS - (crédito: Valdo Virgo)

Terra eternizada pela genialidade de Pelé, Rivellino, Zico, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, o Brasil chegará à Copa do Mundo de 2026 diante de um cenário raro na própria história: a ausência de um camisa 10 indiscutível e um gap de criativade na armação ofensiva. Ao longo do ciclo conduzido por Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti, a Seleção testou diferentes caminhos para preencher a lacuna no setor, mas encerra a preparação para o Mundial dos Estados Unidos, do México e do Canadá ainda sem um meia clássico protagonista absoluto, mesmo diante do possível chamado de Neymar.

O levantamento do Correio mostra nove jogadores utilizados prioritariamente na faixa central mais ofensiva durante os quatro anos de preparação: Andreas Pereira, Gabriel Sara, Gerson, Jean Lucas, Lucas Moura, Lucas Paquetá, Matheus Pereira, Neymar e Raphael Veiga tiveram minutos em campo. Em paralelo, peças originalmente posicionadas pelos lados, como Rodrygo e Raphinha, também apareceram diversas vezes por dentro, evidenciando a preferência recente por um modelo mais dinâmico e versátil do setor criativo.

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A mudança ajuda a explicar, inclusive, uma característica marcante do ciclo: a valorização de atletas atuando no futebol brasileiro. Gerson ganhou espaço vestindo a camisa do Flamengo. Jean Lucas apareceu em convocações pelo desempenho no Bahia. Lucas Moura voltou ao radar graças à retomada técnica no São Paulo. Matheus Pereira recebeu oportunidades pelo Cruzeiro. Raphael Veiga entrou nas listas sustentado pela regularidade apresentada no Palmeiras. Nenhum deles, porém, conseguiu assumir de forma definitiva o posto simbólico historicamente ocupado pelos grandes camisas 10 da Seleção Brasileira.

O vazio criativo aumenta justamente pela ausência prolongada de Neymar. Último brasileiro capaz de carregar naturalmente o status de protagonista técnico da equipe, o extraclasse da atual geração foi convocado pela última vez ainda sob o comando de Fernando Diniz. Desde então, conviveu com problemas físicos e viu a Seleção experimentar diferentes alternativas sem encontrar estabilidade absoluta no setor. Agora recuperado, o camisa 10 surge novamente como possibilidade para a convocação final da Copa do Mundo, marcada para segunda-feira, às 17h, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

A dificuldade de consolidação da posição também passa pelas mudanças estruturais do futebol moderno. O tradicional armador clássico perdeu espaço para jogadores multifuncionais, capazes de atacar espaços, pressionar sem a bola e alternar ocupações em diferentes zonas do campo. Líder nas últimas duas Copas, Tite adorava os aclamados "perninhas rápidas", atletas de lado capazes de acelerar o jogo e entregar dinamismo. Carlo Ancelotti deixou claro enxergar o elenco brasileiro justamente sob essa ótica.

"Eu posso fazer uma lista de jogadores que podem ser protagonistas na Copa do Mundo. Pode ser que agora não tenhamos um jogador referência nesse sentido. Temos um dos melhores goleiros do mundo, temos um dos melhores defensores do mundo, temos meio-campistas top e temos na frente uma lista de jogadores... Eu disse que não quero jogadores que querem ser os melhores do mundo, quero jogadores que querem ganhar a Copa do Mundo", afirmou o treinador.

A declaração sintetiza a lógica construída durante o ciclo. Sem um cérebro criativo centralizador incontestável, a Seleção passou a distribuir funções ofensivas entre diferentes peças. Lucas Paquetá talvez tenha sido o exemplo mais emblemático da transformação. Em alguns momentos atuou quase como segundo volante; em outros, apareceu próximo dos atacantes ou aberto pelos lados. Gerson também alternou constantemente funções entre construção, sustentação e chegada ofensiva. Hoje, mesmo volante, Danilo é quem disponta com a característica.

Mesmo nomes mais associados historicamente ao último passe e à criatividade precisaram se adaptar. Andreas Pereira ganhou espaço pela intensidade sem a bola e pela capacidade de acelerar transições. Gabriel Sara apareceu pela dinâmica física. Matheus Pereira ofereceu repertório técnico diferente, mas sem sequência suficiente para assumir protagonismo contínuo. Raphael Veiga, um dos jogadores mais decisivos do futebol brasileiro nos últimos anos, também não conseguiu transformar oportunidades esporádicas em consolidação definitiva no grupo.

O curioso é perceber como a posição mais emblemática da história da Seleção talvez seja justamente a mais indefinida às vésperas do Mundial. Em outras gerações, o Brasil iniciava ciclos praticamente sabendo quem seria o responsável pela criatividade. Pelé comandou 1958, 1962 e 1970. Zico simbolizou os anos 1980. Rivaldo brilhou em 2002. Ronaldinho Gaúcho encantou em 2006. Neymar atravessou três Copas como referência absoluta do time. Agora, pela primeira vez em décadas, o país parece caminhar para um Mundial sustentado pela força coletiva e pela multiplicidade de funções, mas nem tanto pela existência de um camisa 10 centralizador unânime.

A própria pré-lista de Carlo Ancelotti reforça essa tendência. Entre os meias utilizados no ciclo, apenas Raphael Veiga, Jean Lucas e Lucas Moura ficaram fora da relação ampliada de 55 nomes. O restante segue vivo na disputa por espaço justamente pela capacidade de atuar em diferentes funções dentro do meio-campo e do ataque. Em uma Seleção moldada pela versatilidade, talvez a criatividade deixe de morar exclusivamente nos pés de um único jogador para surgir diluída entre vários protagonistas do meio-campo.

 


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DQ
postado em 16/05/2026 05:01
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