O Almanaque das Copas do Mundo mostra um Brasil quase sempre em boas mãos — ou melhor, em excelentes pés — quando o assunto é lateral-direito. Duas das cinco taças da Seleção foram erguidas por donos da posição. Carlos Alberto Torres levantou a Jules Rimet após comandar o esquadrão do tri em 1970. Cafu repetiu o gesto no pentacampeonato de 2002. Entre um e outro, a Amarelinha foi de Djalma Santos, Jorginho e outros nomes que ajudaram a transformar aquela faixa do campo em território nobre. Ciente do peso histórico da função, Carlo Ancelotti aposta em três caminhos distintos para honrar a linhagem: a juventude de Wesley, a experiência de Danilo e a versatilidade de Ibañez.
Os três são personagens do terceiro capítulo da série "Famiglia Ancelotti", que apresenta os perfis dos 26 convocados para a caça ao hexa na América do Norte. Wesley, Danilo e Ibañez sobreviveram a três anos e meio de observações, testes e mudanças de comando. Ao longo de 37 partidas sob quatro treinadores diferentes, superaram a concorrência de nomes como Emerson Royal, Vanderson, Yan Couto, Arthur, Dodô, William, Vitinho e Paulo Henrique.
O plano original, porém, era outro. Embora seja zagueiro de origem, Éder Militão havia se consolidado como uma solução confiável para a lateral direita sob o comando de Carlo Ancelotti no Real Madrid. As recorrentes lesões mudaram o cenário e abriram espaço para alternativas distintas. Danilo ganhou força pela experiência acumulada em dois ciclos de Copa do Mundo. Wesley somou pontos pela capacidade de apoiar o ataque sem abrir mão da recomposição defensiva.
Ibañez entrou no radar na reta final da preparação, durante a última bateria de amistosos antes da convocação. Destro e acostumado a atuar como zagueiro, o gaúcho de Canela oferece ao treinador uma peça com características semelhantes às de Militão, uma espécie de plano B para reproduzir na Seleção uma solução testada e aprovada no Real Madrid.
É difícil prever qual será a escolha de Ancelotti para iniciar o projeto do hexa em 13 de junho, contra Marrocos, em New Jersey. O italiano costuma adaptar a escalação às características do adversário e pode alternar as peças ao longo da competição. Ainda assim, Wesley desponta como o principal candidato à vaga. Ele reúne atributos valorizados pelo treinador, como intensidade, profundidade pelos corredores e capacidade de recomposição, além de representar a alternativa mais próxima da tradição brasileira para a posição.
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Wesley carrega o selo italiano de qualidade defensiva. O lateral aprimora o jogo na Roma, clube que projetou Carlo Ancelotti para o futebol na década de 1980. Não demorou para conquistar a titularidade da equipe comandada por Gian Piero Gasperini, ainda que em uma função diferente da habitual. Utilizado como ala pela esquerda, passou a atuar no corredor invertido e ganhou responsabilidades criativas na construção das jogadas. A adaptação foi bem-sucedida. Marcou cinco gols, distribuiu uma assistência e ajudou a recolocar o clube da capital italiana na Liga dos Campeões após cinco temporadas de ausência.
Apesar da versatilidade para atuar no corredor inverso, o ex-jogador do Flamengo está bancado no setor direito por Ancelotti. "Wesley foi muito bem na Roma como lateral-esquerdo. Foi uma surpresa. Mas precisamos dele aqui como lateral-direito. Ele vai atuar como lateral-direito", garantiu o dono da prancheta verde-amarela.
A trajetória de Wesley até a Copa do Mundo é um salto de qualidade em sete anos. Antes de vestir as camisas de Flamengo, Roma e Seleção Brasileira, deparou-se com diversas portas fechadas. Foi reprovado duas vezes em avaliações do Figueirense e do Tubarão-SC.
Em 2016, participou de uma colônia de férias do Real Madrid em Florianópolis e terminou apontado como um dos destaques do evento. A recompensa prometida era um período de treinamentos no clube espanhol, mas a promessa jamais saiu do papel.
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A insistência falou mais alto. Aos 15 anos, Wesley finalmente conseguiu uma vaga nas categorias de base do Figueirense, mas permaneceu apenas cinco meses devido à crise financeira do clube. Sem espaço no rival Avaí, aceitou jogar no Tubarão por um salário de R$ 200. Foi ali que começou a chamar atenção. Bastaram cinco partidas na Copa Santa Catarina para que um vídeo de apenas um minuto chegasse ao ex-jogador Sávio.
Convencido do potencial do lateral, o ídolo rubro-negro abriu as portas do Flamengo em 2021. Quatro anos depois, Wesley desembarca na Copa do Mundo como jogador da Roma, dono de títulos importantes na carreira e da marca de primeiro maranhense convocado para defender a Seleção em um Mundial.
A Copa do Mundo lhe reservará outra honra. Wesley vestirá a camisa 2 da Seleção, um número que passou por Bellini em 1958, Jorginho em 1994 e Cafu em 2002. A responsabilidade é proporcional ao tamanho da história. Para quem sobreviveu a reprovações em peneiras, viu uma promessa do Real Madrid ficar apenas no papel e iniciou a carreira profissional recebendo R$ 200 por mês, carregar esse legado é uma dádiva.
Danilo
Poucos jogadores da Seleção Brasileira entendem tão bem o futebol italiano quanto Danilo. Foram cinco temporadas e meia na Juventus, período suficiente para ampliar o repertório e deixar de ser apenas um lateral-direito. Ao longo da passagem pela Série A, passou a atuar com frequência como zagueiro e se transformou em uma das peças mais versáteis do elenco.
A adaptação ajuda a explicar a confiança de Carlo Ancelotti. Aos 35 anos, o mineiro de Bicas chega à terceira Copa do Mundo da carreira como uma espécie de extensão do treinador dentro de campo. A liderança é tão valorizada pela comissão técnica que Danilo foi o primeiro nome confirmado pelo italiano para o Mundial, antes mesmo da divulgação da lista oficial. Titular ou reserva, desembarca na América do Norte com a missão de organizar um setor que mistura juventude, improvisação e experiência.
Deixou a Juventus em 2025, mas manteve o nível de atuação no Flamengo. Danilo também costuma aparecer quando os holofotes estão mais fortes. Foi assim na final da Libertadores de 2025, quando marcou de cabeça o gol do título contra o Palmeiras.
Jogadas pelo alto, aliás, podem ser armas valiosas para uma Seleção carente de um grande articulador. Em 15 de julho, data prevista para uma das semifinais da Copa, o defensor completará 35 anos. O presente seria ajudar o Brasil a voltar ao grupo das quatro melhores seleções, feito que não alcança desde 2014.
Ibañez
Roger Ibañez talvez seja o personagem mais improvável da lateral direita da Seleção. Antes de atuar na Roma, vestir a camisa do Fluminense e conquistar espaço no futebol italiano, o gaúcho de Canela era apenas mais um garoto tentando sobreviver na terceira divisão do Rio Grande do Sul. Na época, sonhava em jogar no meio-campo. Até ouvir uma "profecia" do treinador Edmilson Silva, nos tempos de Players RS: dificilmente chegaria à Seleção como meia, mas poderia alcançar voos mais altos se aceitasse atuar como zagueiro. Aceitou o conselho e teve a carreira mudada.
A ascensão foi meteórica. Passou pelo Fluminense, ganhou projeção na Itália com Atalanta e Roma e chegou à Seleção. Hoje, aos 27 anos, o defensor do Al-Ahli se apresenta como uma das soluções mais versáteis de Ancelotti. Destro, forte na marcação e acostumado a atuar por diferentes setores da defesa, tornou-se uma alternativa para reproduzir na lateral uma função semelhante à desempenhada por Militão.
Mais um formado na escola italiana, após passagens por Atalanta e Roma, chega à Copa com o selo de qualidade de um dos campeonatos mais exigentes para defensores. Quando for utilizado por Carlo Ancelotti, a tendência é que tenha responsabilidades mais voltadas à proteção do sistema do que ao apoio constante ao ataque. É forte nos duelos individuais, veloz nas coberturas e confortável atuando por dentro ou aberto pela direita.
