
Os números usados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para defender a redução progressiva do limite de estrangeiros no Campeonato Brasileiro evidenciam como os jovens brasileiros têm recebido cada vez menos tempo de jogo. No entanto, um levantamento do Correio com os 11 titulares da Seleção no amistoso de hoje, às 7h, diante da Austrália, na abertura do ciclo até a Copa do Mundo de 2030, revela uma segunda questão: o período de permanência no país também muda a rota do processo de amadurecimento.
Entre os convocados com maior permanência nos primeiros clubes profissionais, a marca de 100 partidas deixou de ser exceção. Quem partiu cedo para a Europa, por outro lado, frequentemente precisou esperar por oportunidades e até mudar de clube para encontrá-las.
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O diagnóstico vai de encontro com a principal discussão do futebol nacional nos 16 dias sem jogos provocados pela Super Data Fifa. A CBF e a maioria dos clubes das Séries A e B — Flamengo, Bahia e Londrina são as exceções — aprovaram a redução gradual do limite de estrangeiros relacionados por partida, dos atuais nove para cinco em 2030.
A medida foi apresentada pela entidade como parte de um movimento para ampliar o espaço dos jogadores brasileiros, sobretudo os mais jovens. No entanto, levantamento do Correio com os 11 titulares do duelo contra a Austrália mostra como nem sempre a presença de atletas de fora do país atrapalhou quem tem potencial de vestir a Amarelinha.
A diferença é ressaltada nos detalhes de cada trajetória. Dos nomes escolhidos por Carlo Ancelotti para começar o ciclo, três fizeram mais de 100 jogos pelos clubes de origem. Justamente quem teve tempo para maturar no país. Danilo Santos atuou 141 vezes pelo Palmeiras antes de sair para o Nottingham Forest, aos 21 anos.
Bruno Guimarães acumulou nove partidas pelo Osasco Audax, mas permaneceu por aqui tempo suficiente para alcançar outras 106 pelo Athletico-PR antes de ir para o Lyon, aos 22. Matheuzinho viveu percurso parecido: foram 20 aparições pelo Londrina antes de chegar ao Flamengo, aos 18, primeiro para o sub-20. No time profissional rubro-negro, construiu uma trajetória de 153 duelos até partir para o Corinthians, aos 23. Nos três casos, houve tempo para transformar promessa em jogador de rotina.
Os exemplos do outro lado da conta também são eloquentes. Exceção à regra, Marquinhos deixou o Corinthians com apenas 14 partidas, aos 18 anos, mas quase imediatamente encontrou no futebol italiano uma sequência imediata pouco vista para quem sai do Brasil: disputou 30 jogos na primeira temporada pela Roma e, depois da transferência para o Paris Saint-Germain, passou a superar essa marca em todas as temporadas.
A experiência veio, mas em outro país e em outro estágio de formação. Vitor Reis, no entanto, vive o caminho inverso. Após apenas 22 jogos pelo Palmeiras, rumou à Europa aos 19 anos, somou quatro partidas na primeira temporada na Inglaterra e precisou ser emprestado ao Girona para encontrar sequência: foram 38 jogos em 2025/2026.
Douglas Santos também mostra como sair cedo do Brasil pode alongar o processo de acúmulo de minutagem durante o processo de maturação. Depois de 40 jogos pelo Náutico, deixou o país aos 19 anos para defender a Udinese, mas não encontrou a sequência esperada na Itália. O retorno ao Brasil, para o Atlético-MG, entre 2014 e 2016, foi determinante.
Em Belo Horizonte, disputou 99 partidas e acumulou a minutagem não encontrada na Europa, antes de embacar novamente ao Velho Continente, desta vez ao futebol alemão. O processo de evolução na era sub-23, portanto, não deixou de acontecer. Apenas precisou de um desvio.
Era estrangeira
Estêvão e Endrick representam a geração mais nova dessa discussão e jogaram por aqui justamente nos períodos de presença máxima dos estrageiros. Isso, porém, não diminuiu chances e sequer travou o progresso dos selecionáveis. O primeiro fez 83 jogos pelo Palmeiras antes de sair para o Chelsea, aos 18 anos.
Na primeira temporada inglesa, disputou 36 partidas e, na atual, tem apenas seis até aqui. A adaptação e a disputa por espaço continuam em andamento e baixam a minutagem. Ontem, Ancelotti garantiu sequência à revelação mesmo em cenário de poucas chances. "Às vezes, o interesse do clube não é o interesse da Seleção", destacou.
O brasiliense Endrick acumulou 82 jogos pelo Palmeiras antes de ir para o Real Madrid, também aos 18. Fez 37 partidas na primeira temporada espanhola, mas, com pouco espaço e aconselhado pelo italiano por vaga na última Copa, foi emprestado ao Lyon para ganhar sequência.
De volta a Madri, vive novamente o desafio de conquistar espaço em um elenco de elite, fato não enfrentado quando desfilava com a camisa alviverde nos gramados brasileiros em um grupo com sete estrangeiros, dois deles concorrentes no ataque.
Unanimidade na Espanha, Vinicius Junior também precisou atravessar estágio de adaptação. Revelado pelo Flamengo, rapidamente virou titular em um grupo com sete estrangeiros e fez 69 jogos antes de deixar o país aos 18 anos. Na primeira temporada na Europa, ficou à disposição do Real Madrid Castilla, uma espécie de filial do clube, enquanto se adaptava ao futebol do Velho Continente.
Só depois passou a ganhar minutos na equipe principal e a construir a trajetória responsável por transformá-lo em um dos principais jogadores do mundo. Raphinha teve um caminho ainda mais particular: formado pelo Avaí, não chegou a atuar profissionalmente no Brasil e começou a carreira adulta no Vitória de Guimarães. Fez 85 partidas antes de seguir para o Sporting.
Justamente aí a discussão sobre os estrangeiros ganha uma segunda camada. A CBF aposta na redução progressiva do limite de jogadores de fora como forma de abrir mais espaço para os brasileiros sub-23. O objetivo declarado é aumentar os minutos em campo e, consequentemente, as oportunidades de desenvolvimento.
Os titulares da Seleção, no entanto, evidenciam como a discussão não deve se limitar ao número de vagas para jogadores de fora. Quem teve potencial para vestir a Amarelinha, inclusive, aproveitou as chances mesmo com a concorrência gringa. A mudança, talvez, tenha o potencial de ampliar o número de jovens com a mesma capacidade.
Carlo Ancelotti defende a ampliação de espaço. "A redução dos estrangeiros no futebol brasileiro é um aspecto muito importante para dar chances para o talento brasileiro. Ter muito mais oportunidades de ter minutos no Campeonato Brasileiro. Me parece que não é um demérito reduzir, ano após ano. É uma coisa muito positiva para o futebol", afirmou o treinador.
A Seleção reformulada por ele para os próximos compromissos do ciclo, portanto, carrega uma contradição curiosa: reúne jogadores capazes de chegar rapidamente ao futebol de alto nível, mas, em muitos casos, com pouco tempo para construir experiência no país e nos clubes responsáveis por revelá-los.
O desafio do futebol brasileiro não é impedir os melhores jogadores de saírem. O mercado europeu continuará sendo destino natural para quem desponta. A discussão é se o adeus pode acontecer depois de uma etapa mais longa de desenvolvimento para chegar e jogar mais na Europa. Alguns conseguem construir essa experiência em casa. Outros precisam buscá-la longe, entre empréstimos, adaptações e disputa por espaço. Na corrida para formar a próxima geração da Seleção, talvez a barreira não esteja apenas em descobrir quem tem talento. Está em garantir tempo para transformar em experiência.
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