
A Seleção Brasileira volta a enfrentar a Austrália em busca de uma resposta. E Carlo Ancelotti pode procurá-la justamente onde o time menos funcionou na primeira tentativa. Hoje, a partir das 7h, no Suncorp Stadium, em Brisbane, o treinador testa Raphinha como falso nove, posição na qual o atacante virou protagonista do Barcelona neste início de temporada e surge como possibilidade de deixar a equipe mais letal à frente. Depois do empate por 1 x 1 em Townsville, marcado por uma atuação ofensiva pobre do Brasil, a mudança tática tenta dar ao ataque uma referência diferente e aproximar a Amarelinha do futebol apresentado pelo camisa 10 no clube catalão.
Raphinha não chega à nova função por mero improviso. No Barcelona, Hansi Flick o deslocou para o centro do ataque depois das mudanças no elenco, como a saída do artilheiro polonês Robert Lewandowski, e encontrou uma resposta imediata. São 14 gols em oito jogos na temporada 2026/27, marca responsável por representar o início mais goleador de um jogador na história do clube. A função permite ao brasileiro deixar a faixa lateral, circular entre os zagueiros, participar mais da construção e atacar a área de diferentes espaços. O desempenho foi tão expressivo a ponto de Ancelotti classificar a adaptação como "espetacular".
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Na Seleção, entretanto, Raphinha ainda não conseguiu reproduzir esse rendimento. O próprio atacante reconheceu a diferença. "Nos últimos dois anos, não tenho conseguido entregar um bom resultado dentro daquilo que esperam", admitiu, antes de explicar como o desempenho na Catalunha aponta o caminho para entregar mais com a camisa brasileira. A mudança de posição aparece, então, como uma tentativa de aproximar os dois Raphinhas: o jogador responsável por decidir no Barcelona daquele com potencial de desequilibrar com a Amarelinha.
O primeiro encontro com a Austrália mostrou por que Ancelotti precisou mexer. O Brasil teve mais posse, mas criou pouco, perdeu meio-campo, viu os donos da casa dominarem boa parte do primeiro tempo e só conseguiu evitar a derrota no último lance, com Rayan — outro titular no jogo de hoje. Mesmo depois das substituições, a equipe não encontrou volume ofensivo suficiente para transformar o domínio territorial em chances claras. O segundo duelo, portanto, surge menos como repetição de amistoso e mais como oportunidade de testar uma resposta para um problema exposto.
Neste cenário, o nove de ofício perde espaço. Pedro, vice-artilheiro da Série A com 16 gols, soma 14 convocações e sete partidas pelo Brasil, todas saindo do banco. Mesmo depois de uma temporada produtiva pelo Flamengo, o atacante ainda não recebeu uma oportunidade para começar com a Seleção. Endrick, outro nome natural para a posição, também está entre as alternativas, mas Raphinha aparece à frente justamente porque oferece algo buscado pelo técnico: mobilidade para abrir espaços em vez de permanecer preso à referência da área.
Os números ajudam a explicar a escolha. Entre os candidatos à posição na primeira convocação do ciclo, Pedro marcou 25 vezes em 48 jogos em 2026; João Pedro, cortado por lesão, fez 16 em 33; Endrick, nove em 30. Raphinha soma 28 gols em 33 partidas no ano e, nos oito jogos nos quais atuou centralizado pelo Barcelona nesta temporada, chegou a 14. Muito além de comparar médias, a conta revela como o atacante, consagrado na Espanha como ponta, passou a oferecer produção de centroavante justamente quando recebeu liberdade para jogar por dentro. No Barcelona, a experiência transformou-se em arma.
O movimento também combina com as mudanças ensaiadas por Ancelotti para a segunda partida. O treinador abriu mão da estrutura com quatro atacantes e trabalhou com três jogadores no meio-campo. A ideia é aumentar o controle do jogo e, ao mesmo tempo, criar mais alternativas para chegar à área. Há, também, uma questão simbólica. Raphinha assumiu a camisa 10 da Seleção após a saída de Neymar e, agora, assumirá a função de nove, uma das carências da Amarelinha nos últimos compromissos, inclusive na Copa do Mundo.
O amistoso não oferece ponto, taça ou classificação, mas algo mais importante para o momento da Seleção: uma resposta. Depois do 1 x 1 catastrófico em Townsville, Ancelotti teve três dias de trabalho, sete mudanças no time ensaiado e uma aposta clara. Raphinha vai deixar a ponta para tentar levar à Amarelinha o futebol apresentado por ele Barcelona. O Brasil procura uma vitória. O treinador procura uma ideia. E o ataque procura, outra vez, um nove inconstestável.
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