Só o Paris Saint-Germain marcou mais gols do que o Como nesta edição da Liga dos Campeões. O time italiano desafia o estigma de que o futebol tetracampeão mundial é sinônimo de defesa e pragmatismo. São 19 bolas na rede em quatro partidas, com uma contribuição maiúscula nesta quarta-feira (4/11): a goleada por 9 x 1 sobre o Lens, da França, a maior da história da era moderna do torneio.
Em número de gols, o placar só fica atrás do 9 x 2 aplicado pelo Bayern de Munique sobre o Dínamo Zagreb, na temporada 2024/2025. Em diferença de bolas na rede, porém, o resultado italiano igualou outros dois placares históricos da competição: Liverpool 8 x 0 Besiktas, em 2007/2008, e Real Madrid 8 x 0 Malmö, em 2015/2016.
Sob o antigo formato da Copa dos Campeões da Europa, até 1992, a maior goleada da história foi o 11 x 0 do Dínamo Bucareste sobre o Crusaders, da Irlanda do Norte.
O Como também alcançou uma marca inédita para clubes italianos: jamais uma equipe do país havia vencido por uma diferença tão ampla como visitante na Champions League. Com o resultado, chegou a três vitórias em quatro jogos nesta edição. A única derrota foi para o Feyenoord, por 3 x 2. Antes da goleada sobre o Lens, havia vencido o RB Leipzig por 4 x 1 e o Manchester United pelo mesmo placar.
A vitória foi construída com um hat-trick do grego Tasos Douvikas. A joia argentina Nico Paz marcou uma vez e distribuiu duas assistências. Também balançaram as redes o francês Lucas da Cunha, o alemão Marc-Oliver Kempf, o italiano Mattia Liberali, o croata Martin Baturina e o italo-brasileiro Matteo Papaccioli.
Nascido em Taubaté (SP), Papaccioli é um meio-campista que começou a jogar futebol e futsal no Brasil e se mudou para a Itália ainda criança, acompanhado da família. Aos 10 anos, estava no país europeu, onde seguiu a formação como jogador. Em 2022, chegou às categorias de base do Como e passou a defender também as seleções de base da Itália.
A goleada italiana também teve reflexos nas arquibancadas. Incomodada com a sequência de gols e a atuação dominante do Como, a torcida do Lens deixou de apoiar a própria equipe e passou a incentivar os comandados de Cesc Fàbregas. A cada troca de passes, os torcedores entoavam uma série de “olés”, transformando a frustração com o resultado em uma cena inusitada no estádio.
A ascensão do Como impressiona pela velocidade. Em sete temporadas, o clube saiu da quarta divisão italiana e chegou à Liga dos Campeões. A transformação começou em 2019, com a compra pelo grupo indonésio Djarum, e ganhou força com a chegada de Cesc Fàbregas, em 2022. O espanhol encerrou a carreira como jogador, tornou-se treinador e passou a ser uma das figuras centrais do projeto.
Na temporada 2025/2026, o Como terminou a Série A em quarto lugar e garantiu vaga na Champions. O sucesso, porém, também provoca questionamentos: naquele campeonato, jogadores italianos somaram apenas 14 minutos em campo pela equipe, com Edoardo Goldaniga como único nascido no país.
O projeto também chama atenção pela composição do elenco. Dos 27 jogadores que integram o grupo, 21 são estrangeiros, o equivalente a aproximadamente 78%. Dois são brasileiros: os laterais Yan Couto e Kaiki Bruno, ex-Cruzeiro. A forte presença de atletas de outras nacionalidades contrasta com a tradição do futebol italiano e abre espaço para o debate sobre a identidade do clube em meio à ascensão esportiva.
